Infelizes para sempre

17 setembro 2013


Final feliz é coisa que a Disney inventou, diz ela, abraçando o princípio do fim e o travesseiro macio de sua cama, sem saber qual seria o dia mais apropriado para sair de lá de dentro e "viver" novamente, pois até agora o que sentia era uma morte interna. 26 anos é uma idade feliz, muitas mulheres já estão morando com seus namorados, talvez até grávidas, vivendo o tal do "felizes para sempre" que as pessoas insistem em desejar. Mas ela não, ela está sozinha novamente, não é culpa dela, muito menos dele. Foi uma proposta sem opções de escolha, se Fernando não aceitasse a transferência de estado, perderia o emprego que o sustentava. Convidou-a para ir junto, mas ela não pôde aceitar, se fosse quem seria demitida era ela, e sua família precisava que ela continuasse trabalhando, estavam em uma crise financeira que apenas o trabalho dela conseguia acalmar, ela obteve sucesso profissional e sua sensação de utilidade finalmente fôra obtida, achou que com isso seria feliz, mas se enganou. Quando os sentimentos misturam-se à razão não há coração que aguente, e o dela estava partido. O dele mais ainda, estavam juntos desde o segundo ano do ensino médio, fizeram curso no mesmo lugar e foram para a mesma faculdade, cada um com seus objetivos. Quase seis anos juntos, e o que deveria ser a união definitiva, tornou-se a separação, contra a vontade de ambos. 
O pior dia de sua vida, foi quando recebeu a notícia, ele sequer teve coragem de contar pessoalmente, sequer teve coragem de contar no momento exato, ela acordou, e no criado mudo de sua cama, estava a carta. As lágrimas desceram com peso, ao descobrir que o seu amor estava agora em um avião, que não conseguiu revelar isso antes, e que sentia muito. Passou o resto do domingo em sua cama, chorando enquanto ouvia Labios Compartidos, da banda Mana. O que ela não entendia, era por que as coisas sempre tinham que dar errado para ela, e por que quando as coisas estão bem, acontece algo para estragar. Seu telefone toca, era uma mensagem dele dizendo "sinto muito pela notícia, eu sinto tanto sua falta... parece que arrancaram um pedaço do meu coração". Ela mandou uma mensagem dizendo que ainda não acreditava no que aconteceu, e que precisava dele ali. Na vida real, infelizmente é assim, não existe eternidade, nada dura para sempre. Acreditem ou não, os dois nunca mais se relacionaram com outra pessoa, nunca mais beijaram outros lábios novamente. Enquanto ela olhava um retrato dele em um estado, ele lia o histórico de conversas em outro, e a única parte boa do ano era quando eles podiam se ver nas férias. Mentiam que estavam bem para não preocupar um ao outro, mas por dentro, estavam destruídos. Durante o dia, faziam tudo pensando um no outro, olhavam pela janela do ônibus como se houvesse a possibilidade de ver um ao outro, durante a noite, olhavam fotos, liam mensagens, ouviam a música do casal, e dormiam para esquecer um pouco. Mas tudo em vão, pois acabam sonhando com qualquer momento compartilhado no passado, as pessoas aconselhavam-os sempre a desapegar, sabendo que o amor era recíproco, mas que não havia mais futuro para eles. Sim, realmente, seria melhor para os dois se pudessem seguir em frente, mas eles apenas não conseguiam, havia sempre uma foto, um dia, uma lembrança que os puxava para trás, eles eram adeptos da moda antiga, aquela que exige fidelidade mesmo depois do fim. Na opinião deles, nada substituiria o sabor de alegria que era ver o sorriso um do outro, nada mais seria a mesma coisa. Não saíam mais de casa, eram amantes de uma boa festa, mas agora a coisa mais emocionante de um sábado era ler um romance do Nicholas Sparks enquanto tomavam café. Ela se lembra então, dos livros que seu pai lia para ela quando era menor, apenas uma criança inocente de 5 anos, que ainda esperava seu príncipe encantado. Agora, aos 26, ela pega a história da Branca de Neve, coloca na última parte, acrescenta um "in" em uma palavra da última frase, e arranca a página. Toda vez que Adriana termina de admirar o álbum fotos com seu ex-namorado, encontra no lugar da última foto, uma folha de papel com a frase "E eles viveram infelizes para sempre", cujo "in" é marcado à caneta azul. 

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