O grito que ninguém ouviu

13 setembro 2013


Três da tarde, tempo nublado, quente, e  uma roda de amigos fazendo bagunça em um acampamento, que se residia em meio à floresta. Risadas incessantes, piadas infindáveis, crises de riso que jamais chegavam ao fim, um minuto de silêncio era cedido e tudo começava novamente. Estar com os amigos era uma bênção para ela, pois seus problemas pareciam esvanecer na brisa da amizade, mas apenas pareciam. Ariane era seu nome, 17 anos ela tinha, a menina estava sufocada, ninguém sabia, mas sua alma era apenas um acúmulo de gritos e surtos que ela nunca pôde expor. Se sentia sozinha em meio à multidão, não estava deslocada, ao contrário, era uma das mais enturmadas e engraçadas do grupo de amigos, sua solidão devia-se a quantidade nula de pessoas as quais ela conseguia confiar, pois sua esperança no mundo havia sido assassinada há muito tempo. As decepções, mentiras e traições são o pior tipo de arma que o ser humano pode usar contra você, e ela estava dilacerada, todos os dias sentia vontade de gritar de dor, perguntando-se sempre os motivos de tudo isso. Por que tem que ser assim? Por que as pessoas não podiam simplesmente parar de enganá-la? Por que não paravam de confundí-la? Eram perguntas que ninguém jamais saberia responder a ela, mesmo se um dia ela fugisse de si e resolvesse perguntar. São coisas da vida, mas que estavam arruinando a dela, fazendo com que ela perdesse a fé na mesma. Ela fazia piadas, esquecia-se disso por uns segundos. Quanto tempo dura uma crise de riso? O tempo necessário para aguentar tudo calada. Toda noite era um martírio, pois ela tentava procurar as chaves da prisão que ela mesma criara. 
Alguns minutos se passavam, e enquanto ela recuperava-se de sua crise de riso, um de seus amigos disse:
- Eu vou ir na piscina, alguém quer vir comigo?
Todos animam-se para atirar-se nas águas, imitando uma bola de canhão. Todos claro, menos Ariane.
- Ô, Ariane, você que é sempre animada, não vem, não?
- Não, obrigada, vou fazer uma trilha. - Responde ela, com um sorriso aparentemente leve e meigo no rosto.
- Mas sozinha? Não vá se perder, hein? Esse "treco" é grande!
- Não se preocupe, eu venho nesse acampamento todo ano.
- Então tá, hein? Depois não vem dizer que não te avisei.
De fato, ela conhecia cada centímetro cúbico da mata que rondeava o acampamento, não era uma mata realmente, era parte da propriedade, apesar de ser realmente enorme, ela era capaz de se virar. Sabia bem o que queria fazer. E então ela entra na trilha, e caminha em direção a um ponto onde ninguém jamais a ouviria, não importa o quanto gritasse, ela levara o celular caso algo acontecesse, o sinal pegava bem, por incrível que pareça (a não ser que ela decidisse ligar para casa, ou qualquer lugar que ficasse fora do acampamento).
Quando se viu distante de tudo e de todos, começou a correr um pouco, cada vez mais atônita, o sangue subindo as suas veias e o ódio reprimido se expandindo a cada segundo. E então ela finalmente chega onde quer, uma cachoeira, com algumas pedras em volta, mas com espaço suficiente para 10 amigos se banharem jogando água um no outro. Estava na hora de liberar o delírio que ela se devia há muito tempo, e sem pensar duas vezes, começou a gritar, pode achar estranho, mas não importa, ninguém a ouviria mesmo! E ela gritou, gritou com todas as suas forças, gritou como se não houvesse amanhã, gritou até o ar fugir de seu pulmão. Questionou todos os porquês e pra quês que estavam entalados em sua garganta, esbaforiu a todos os ventos o que ninguém jamais saberia: estava acabada, e ao mesmo tempo, revitalizada. Os gritos a fortaleceram de um modo o qual não precisaria derrubar uma lágrima pelos próximos 7 meses, era tudo o que precisava, os ventos foram seus melhores amigos, os únicos que valiam a pena confiar. E quando ela tomou banho na cachoeira, meu amigo... foi como lavar sua alma por completo, ela nunca se sentiu tão bem em toda a sua vida. Nunca conheceu tamanho bem estar. Revigorada, ela pega o celular que deixara próximo a uma árvore, e segue rumo aos alojamentos, seus fios de cabelo encharcados deixavam-na com uma aparência natural e delicada. Ela entra para se secar, e uma amiga a aborda:
- Ahá, pegando uma cachoeira, né? Eles iam levar a gente amanhã, espertinha...
- Mas é tão fresquinha aquela água... não consegui esperar.
- Tem piscina pra quê, minha filha? Bom, deixa quieto, confesso que se eu soubesse onde é também teria ido. É bonito lá onde você foi?
- É... é bem bonito, mas tem que cuidar, diz que se você cair, não adianta gritar que ninguém escuta, por isso não deixam as pessoas irem sozinhas. 
- E como você conseguiu?
- O instrutor não sabe que eu fui, e meus amigos sabem que não é pra contar.
- Hum... tomara que não contem mesmo, se contarem te mandam pra casa.
- Não faz mal.
Ariane separa sua roupa, e vai para o chuveiro tomar banho, sem saber que havia realizado em segredo, o sonho de todos que frequentavam este acampamento.

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