Pensando bem...

05 setembro 2013


Eu estava na estação de trem, descendo do metrô, voltando de mais um cansativo dia de serviço puxado. Trabalho na área administrativa, assino papéis, crio relatórios, organizo o dia da empresa, separo o salário alheio antes mesmo de receber o meu. Às vezes é tranquilo, outras mil são estressantes. Estou acostumado, ganho bem para isso. Foram anos de batalha até chegar aqui, passei muito tempo juntando pequenas quantias, para ganhar grandes valores hoje. Moro sozinho, pois fui transferido para São Paulo há alguns meses (6 meses para ser exato, meio ano). Doía-me ser afastado de minha família, mas na ausência de outras escolhas, terminei por aceitar a única que me era agradável, ou correria o risco de uma demissão. Atualmente minha meta é ser promovido, o que significa trabalhar mais, porém, ganhar mais. Mas isso não vem ao caso agora. Ou vem? Voltando ao que estava contando, decidi passar em uma lanchonete da estação, e comer algo antes de ir para casa, assim, quando chegasse, não me daria ao trabalho de perder tempo pilotando fogão, estaria cansado demais até mesmo para isso. Quando saí, notei que alguém havia deixado cair uma moedinha sem perceber, e abaixei-me para pegá-la. Era apenas uma moeda de 5 centavos, o que eu estava pensando? Um homem que ganha cinco mil e setecentos reais por mês como eu, não precisa ficar se abaixando para pegar míseras quantias como esta. Além do mais, no auge de meus 42 anos, minhas costas andavam doloridas demais para me abaixar por qualquer coisa. Eu estava prestes a seguir rumo a parada, quando um senhor de aparentemente 67 anos, abaixou-se e pegou a moeda. Ele mostrou-a para mim, pronunciando as seguintes palavras:
 - Quem esnoba 5 centavos, não é merecedor de valores maiores.
Então ele a levou, e sumiu dirigindo-se ao nada. Primeiramente chamei-o de louco, apenas em meus arrogantes pensamentos. Mas não posso deixar de assumir que tal frase me deixara perplexo. Dediquei o caminho de volta à reflexão. O sábio ancião estava correto, não merece chegar ao topo da escadaria, quem desvaloriza o degrau onde se encontra ou já se encontrou. Assim como vos relatei, meu atual estado profissional e financeiro se deve às migalhas que juntei e usei durante anos, renegar tal moedinha, era como renegar minhas origens. Comecei a pensar sobre como andava desumilde, e repensar se uma promoção era mesmo necessária, eu ganho suficiente para sustentar não apenas uma, mas três famílias ou até mais que isso. Tenho a possibilidade de viajar durante as férias, e meus sonhos de consumo já foram parcialmente conquistados, e sobra dinheiro em minha conta e carteira todo mês, nem todos têm esse benefício. Com o que exatamente eu gastaria o que continuaria restando? Se eu pensar melhor, eu não preciso de tantas futilidades assim, elas servem apenas para sustentar minha vaidade. Meu salário atual está mais do que bom. Este acontecimento me ocorreu há duas semanas, e eu nunca vi aquele velho ser novamente, o que é uma pena, seria um prazer agradecê-lo por ter me ensinado a valorizar o que possuo, não importa se um dia for pouco, tudo o que eu tiver deverá sempre ser meu "muito". Talvez esta promoção ainda seja válida, uma vez que ela permita trazer minha família para morar junto a mim, ela será um ganho maior do que parece. Deste modo, meus metafóricos 5 centavos sem valor, serão em minha mente, valiosos 5 milhões de reais.

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