Resenha: Perto do Coração Selvagem

23 setembro 2013


Autor: Clarice LispectorEditora: RoxoAno de Publicação: 2003Em 1974, Clarice Lispector publica o que fôra seu primeiro livro, ela escrevia e reescrevia os seus textos, até chegar ao resultado que a agradaria, e editava suas próprias obras pedindo apenas que a editora publicasse o seu feito. Isso fazia com que ela não lesse os seus próprios livros, afinal, como ela passava tanto tempo lendo e ajustando as histórias, ao publicar ela considerava um "livro morto", pois ela já estava cansada de sua própria criação. Apesar disso, ela não se preocupava em guardar manuscritos e obras originais, o único livro original que sobrou foi o "Água viva". Em "Perto do Coração Selvagem", a autora conta a história de uma garota chamada Joana, desde a sua infância até a fase adulta. A criança tinha uma facilidade admirável em recitar poesias improvisadas, dizia que era fácil, que ela apenas "brincava" com as palavras, falava delas apenas para o seu pai, que se surpreendia com o talento da filha. Ela era considerada fria e má pelas pessoas, a grande maioria chamava-a de víbora, pois era aparentemente incapaz de amar e sentia prazer em cometer atos cruéis, como furtos por exemplo, sua defesa era dizer que podia fazer de tudo. Que não era nada demais, ela era egoísta demais para se importar, e a bondade alheia lhe causava "náuseas", considerava chato, irritante e enjoativo o fato de algumas pessoas terem empatia com outras. Tinha dificuldade em expressar o que pensava e sentia, e sentia que os mesmos eram movidos pela fala, e não pelos sentimentos, pois toda vez que decidia explicar algo, acabava se atrapalhando, e caso se irritasse, as palavras agiam por ela e contra ela, decidindo o que ela sentiria no momento. Na escola, desenvolveu sentimentos por seu professor, quando ainda era uma criança, sem corpo nem nada, considerada feia por si própria, em comparação com a esposa dele, que era muito encorpada e considerada "sensual". Mas obviamente, essa paixão não acabou tão bem quanto ela queria. Em seguida, teve outras paixões que deram errado, justamente por causa de sua personalidade considerada fria e incapaz de amar completamente um alguém, mas o que poucos sabiam é que ela tinha um lado romântico, meigo e inocente, que estava inserido lá no fundo, onde poucos chegavam, raramente enxergavam, pois a única coisa que ela fazia questão de demonstrar era seu pessimismo, que ela considerava realismo. Inclusive, o livro mistura o realismo-naturalismo, e, o romantismo-simbolismo, ou seja, criando um entrelaçamento entre a realidade em si, e o que ela pensava da mesma. Também é mostrado uma boa parte da personalidade da autora, em fragmentos do livro, é como se fosse uma auto-biografia não planejada, pois ela cria os personagens baseados em parte da sua personalidade e história de vida, porém, sem fazer com que eles sejam totalmente igual e ela.Uma coisa que me surpreendeu muito nesse livro, foi descobrir o fato de que a autora não se interessava nas próprias obras, é compreensível, o tempo que ela passava mudando-as causava o cansaço das mesmas, e também é de se imaginar que ela prefira mostrar apenas o que ela mesma escreveu, e não o que a editora resolveu remover ou acrescentar. Mas é sempre um baque quando vemos algo diferente do que estamos acostumados a presenciar, eu sempre releio os textos que escrevo, e até mesmo elejo meus favoritos, o que pode lhes parecer patético e até mesmo egocêntrico, mas é provável que muitos escritores mais famosos, tenham esse mesmo costume. Esse e também o de fazer com que haja uma identificação entre o personagem fictício e o autor da obra, pois a ideia de fazer uma auto-biografia contando sobre sua vida é sempre desafiadora, afinal, nem todos estão dispostos a ouvir as críticas possíveis contra sua vida pessoal, por isso deve ser bem comum criar um personagem que seja parcialmente um reflexo de si. Também me identifiquei muito com o livro, não apenas com a personagem denominada Joana, mas também com o modo de escrever da autora, de mesclar-se às características da protagonista. Não acho que eu seja uma má pessoa como a Joana, capaz de fazer qualquer coisa sem sentir um pingo de remorso, pois considero a maldade um ato infantil e vazio, feito por uma pessoa insatisfeita com a própria vida e sem esperanças para resolvê-la, cuja luz no fim do túnel é fazer com que a vida alheia torne-se pior por comparação. Mas a visão da realidade, e o jeito da personagem, que não é completamente romântico, e raramente ama, mas quando ama, se entrega e ama muito, mesmo que seja de um jeito frio e mal-demonstrado, fazendo com que a pessoa duvide do que sinto. A história do livro é realmente muito boa, e faz com que o leitor se prenda à leitura, vale muito a pena ler ou reler o mesmo.

2 comentários:

  1. Morro de curiosidade de um dia poder ler os publicados de "Clarice Lispector", suas frases são inspiradoras e a sua história, idem. Gosto de livros que me passem uma boa impressão e que eu também consiga me identificar com a protagonista, e por sorte só tenho lido livros assim. Vou procurar este que você resenhou na biblioteca, será que encontro? ^^

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  2. Eu também, gosto de ler histórias motivadoras, que nos inspirem a fazer o que achamos certo, baseadas em fatos reais ou não, todo livro tem um pedaço do autor e até as ficções tem uma pitada de realidade, eles escrevem o que sentem. E respondendo sua pergunta, acha sim, é só procurar, qualquer coisa talvez dê pra achar na internet, numa livraria, é só pechinchar bem e achar o mais barato. =)
    antigosdiarios.blogspot.com

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