Voltei do luto

06 setembro 2013


Estava em um velório, mas não qualquer velório, de qualquer pessoa sem importância. Nunca gostei deles, uma vez que só fui convidada a velórios de pessoas as quais não tive maiores proximidades, mesmo se fossem importantes em minha vida, visitar seu enterro seria cutucar a ferida e prolongar a dor. Mas dessa vez era sério, a dor era muito grande para uma pessoa só, mas não pense que perdi um ente tão querido, por sorte, fui livrada desse tipo de dor em minha patética vida. O velório era nada mais nada menos do que o meu próprio. Fiz uma longa lista de convidados, e fui eliminando um a um, não queria convidados que não tivessem intimidade, não queria convidados que não entendessem minha dor, eis que a lista ficara vazia, não sobrou ninguém. Nem mesmo minha família, a qual eu nunca soube explicar o que se passava em meu interior, simplesmente por medo de incompreensão. Não os culpe, pois a culpa é minha, passei a vida presa na jaula que eu mesma criei, e saí dela apenas para meu velório e enterro. Estava em luto, por todos os sentimentos bons que a sociedade assassinou dentro de mim há muito tempo, sentimentos como confiança, esperança, amor, amizade ... todos foram extinguidos para bem longe de minha alma. Isso era ou não era motivo de luto? A única coisa que eu poderia ter em meio a solidão não estava disponível: fé, vontade de viver. 
As horas passavam arrastando-se como um zumbi que partia ao ataque, qualquer semelhança não seria mera coincidência, levando em conta que meu coração estava tão apodrecido quanto o corpo de um finado. Querer chorar era um martírio, já que as lágrimas secaram e deram lugar a minha frieza estável, tornei-me apenas um ser vazio, isento de bons sentimentos, pois todos eles eram sempre afugentados pelo medo do fim. Passado algum tempo, começara o enterro, decidiram enterrar simbolicamente comigo, CD's das bandas que me mantiveram viva por um bom e belo tempo, e deparei-me com um cuja capa dizia "back in black", era da tal banda que eu considerava minha salva-vida, a única que me fazia sentir viva quando todos me matavam por dentro. Lembrei-me do trecho inicial da música, com o mesmo nome do álbum: "De volta do luto, eu cai na cama, estive longe por muito tempo, estou contente por estar de volta. Sim, eu fui libertado da forca, que me manteve dependurado". Eu não sabia se era a mesma forca, provavelmente não, mas a forca que me mantinha dependurada era o pessimismo relativo ao fim, consequente de minhas antigas decepções. Foi então que decidi me libertar, a forca não estava em meu pescoço, mas as marcas ainda causavam plena dor, e ignorando essa dor eu levantei-me de meu próprio túmulo, interrompendo o discurso do padre, causando o espanto do mesmo. Angus Young (o compositor da música), já não era o único a voltar do luto, e essa era eu, voltando de meu próprio luto, minha alma se cansou de sofrer, fugi de meu próprio enterro, deixando as poucas pessoas que ali estavam, perplexas e assustadas. Deveria ter voltado do luto há muito tempo, mas antes tarde do que nunca, e assim como o mestre Young dizia no trecho, "estive longe por muito tempo, estou contente por estar de volta", era isso o que me importava, só isso. E então segui minha vida, sem deixar ninguém pisar em mim, seguindo a lei de um outro trecho da música "não desafie sua sorte, simplesmente saia do meu caminho", pois me irritar tornara-se a mesma coisa que acender o pavio curto de uma bomba nuclear altamente destrutiva. Voltar do luto fôra minha melhor escolha, e tenho-a em minhas memórias até o dia presente.

2 comentários:

  1. Meu, tu disse que se inspirou em Back in Black pra fazer, desde quando essa música fala de velório ou fugir do túmulo? Nem pesquisa a letra e já vai falando, puta poseragem!

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  2. @Anônimo Só porque eu me inspirei, não quer dizer que eu vá fazer uma descrição da música, eu sei que a letra não é essa! Eu apenas me inspirei com o termo "voltei do luto" e com alguns trechos!

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