Calma e Tranquila

14 outubro 2013


Ela tinha apenas 5 anos quando sonhou, era apenas uma criança com seus devaneios, pareciam de brinquedo. Assistia desenhos e filmes, eles faziam com que sapatilhas e saias viessem a rondar em sua mente. Numa delicada pirueta, se cansou de sonhar e quis tornar real. Não importa a idade, alguma hora o ser humano se cansa de apenas sonhar e quer fazer com que seus sonhos sejam sua realidade, e foi isso o que ela fez. Mas não pediu para sua mãe, implorou para que a matriculasse nas aulas. Marina era apenas uma criança, mas já sabia bem o que queria de sua vida: ser uma bailarina, famosa e ganhar dinheiro para sentir o prazer dos rodopios e coreografias. 
Sua mãe via o brilho que surgia em seus olhos toda vez que pronunciavam a palavra balé, de tanto observar, decidiu ceder. A família não era rica, era humilde, dava pra viver confortavelmente sem muitos luxos. Teriam de cortar alguns gastos para pagar a mensalidade, mas valia a pena: estavam falando de um sonho. Com uma boa administração e muita dedicação, chegou o primeiro dia de aula, a semana de adaptação fôra desnecessária, pois Marina fazia amizades com muita facilidade, além de estar empolgadíssima com as experiências que viveria daqui pra frente. Era um pouco atrapalhada, mas uma fórmula a transformou na melhor dançarina da turma: tempo, dedicação e força de vontade. A professora era dócil, as colegas, brincalhonas.
O tempo foi passando, ela fez 6 7 e 8 anos. Nem todos entendiam seu amor pela dança, as meninas talvez, os meninos jamais. Uma piada aqui, um xingamento ali, palavras ignorantes vindas de crianças que pareciam não saber o que é um sonho. Mas ela não ligava, era calma e tranquila, possuía uma bondade única, um sorriso encantador e uma fé inabalável. Coisas que poderiam desaparecer com o tempo, mas não. Contas de matemática, redações de português e ensaios de ballet. Essa era a vida da sonhadora Marina, cuja amizade fôra se firmando com a espevitada Raquel.
O tempo foi passando, ela fez 9, 10 e 11 anos. Nem todos entendiam seu amor pela dança, as meninas talvez, os meninos jamais. Uma piada aqui, um xingamento ali, palavras ignorantes vindas de pessoas que pareciam não saber o que é esperança. Mas ela não ligava, era calma e tranquila, possuía boas amizades, um olhar profundo e um otimismo infindável. Coisas que poderiam desaparecer com o tempo, mas não. Trabalhos voluntários, provas de geografia e ensaios de ballet. Essa era a vida da adorável Marina, cujas dificuldades foram começando a aparecer: ela se apaixonou por Miguel.
O tempo foi passando, ela fez 12, 13 e 14 anos. Nem todos entendiam seu amor pela dança, uma piadinha aqui, um xingamento ali, palavras ignorantes vindas de um ser que parecia não saber o que é compreensão, mas que em segredo, também a amava. E pela primeira vez, ela ligava, era sensível e romântica, possuía uma empatia surpreendente, lágrimas comoventes e uma honestidade infinita. Coisas que poderiam acabar com o tempo, mas não. Um primeiro emprego, trabalhos de história e ensaios de ballet. Essa era a vida da dedicada Marina, cuja personalidade uniu-a com Miguel.
O tempo foi passando, ela fez 15, 16 e 17 anos. Nem todos entendiam seu amor pela dança, as meninas talvez, os meninos jamais. Uma piadinha aqui, um xingamento ali, palavras ignorantes vindas de adolescentes que pareciam não saber o que é maturidade. Mas ela novamente não ligava, era calma e tranquila. Possuía um bom coração, uma simpatia cativante e uma determinação interminável. Coisas que poderiam desaparecer com o tempo, mas não. Seu primeiro namorado, vestibular para Artes Cênicas e os ensaios de ballet. Essa era a vida da persistente Marina, cujas alegrias estavam prestes a afastar-se: sua mãe morrer de câncer, a mesma era filha única, órfã e viúva. O pranto da jovem fôra por 1 mês, bem mais forte que a razão, pois foi sua mãe que a ajudou a entrar no caminho da realização de seu sonho, era ela quem a levava nas aulas de balé. E como ficaria sozinha, foi convidada a morar com a família de Miguel, pessoas com quem há tempos possuía intimidade, seriam todos então, vizinhos de Raquel.
O tempo foi passando, ela fez 18, 19, e 20 anos. Nem todos entendiam seu amor pela dança, suas companhias talvez, mas os colegas de trabalho jamais. Uma piadinha aqui, um xingamento ali, palavras ignorantes vindas de adultos que pareciam não saber o que é perseverança. Mas ela não ligava, era calma e tranquila, possuía uma inteligência admirável, um caráter inegável e uma alma pura. Coisas que poderiam desaparecer com o tempo, mas não. O primeiro carro, seu amor por Miguel, a primeira casa própria e a fama de bailarina. Essa era a vida da batalhadora Marina, cuja sorte estava mudando, uma companhia respeitada a convidou para apresentar-se no exterior, poderia levar quem quisesse para assistir. Levou seu namorado, e sua melhor amiga.
O tempo foi passando, ela vez 21, 22 e 23 anos. Depois 24, 25 e mais 26. Nem todos entendiam seu amor pela dança, uma piadinha aqui, um xingamento ali, palavras ignorantes de indivíduos que pareciam não saber o que é realização. Mas tudo bem, já não faziam parte de sua vida, e ela nunca ligou. Era calma e tranquila, possuía brilho no olhar, um foco respeitável e um bom humor inigualável. Coisas que poderiam desaparecer com o tempo, mas não. A amizade com Raquel, seu amor por Miguel, os inúmeros shows de ballet e um sonho realizado. Essa era a vida de Marina, cujo amor por Miguel estava para dar frutos. Um fruto, um filho, o qual seria motivado a seguir atrás de seus sonhos, por mais difíceis que eles fossem, os obstáculos dificultam, mas não impossibilitam. 
Marina sofreu, mas nunca desistiu, nem nunca deixou-se influenciar pelo otimismo alheio. Esta pode ser uma ficção, mas ela não foge tanto assim de nossa temida realidade. Nada é impossível se você acreditar, traçar um rumo e ir à luta.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

E então, o que achou do post? Gostou? Odiou? Achou uma bosta e tá a fim de me mandar pra puta que pariu, e dizer que eu sou uma escrota? Fala aí!