Ventania da Sorte

22 outubro 2013


Eram mais ou menos três e quinze da tarde de segunda feira quando uma patricinha de cabelos longos e morenos surtava em uma rua de um indeterminado bairro nobre. Era mimada, arrogante e egoísta, para ela, o mais importante era conseguir o que queria, como queria, e na hora que queria, mesmo se para isso sentisse a necessidade de pisar em alguém. Naquele momento, queria morar longe de seus pais "idiotas" que a castigaram por desrespeitar um professor. Há umas semanas atrás ela fugira de casa, e usara parte do dinheiro que deveria servir para matriculá-la em um curso, para comprar um bilhete de loteria, e ao chegar em casa, mentiu que estava na biblioteca, fazendo a alegria ilusória de seus pais. Semanas depois, viu que havia vencido quando passava em frente a TV da sala, e sentiu-se vitoriosa ao descobrir a notícia, esculachou seus pais, falou mal da empregada, fazendo a mesma chorar. Contou que na verdade não tinha ido em biblioteca nenhuma, e que agora não precisava mais deles, nem daquela escola inútil, teria casa, carro e moto próprios. Pelo menos era o que pensava, ao passar pela rua, o calor estava insuportável, embora houvesse uma brisa aqui, e uma ventania ali, ventania esta que levou o seu bilhete de loteria embora, causando a fúria descontrolada da jovem, que ficou de castigo por tempo indeterminado ao chegar em casa, sem TV, sem notebook, sem celular, sem nada, muito menos as festinhas que costumava ir em todo fim de semana, deveria ao invés disso, estudar e ajudar a empregada com o serviço, pois esta estava velha e o serviço estava ficando puxado demais.
Não muito longe dali, vivia uma talentosa mendiga de 16 anos, a mesma era órfã, e vivia nas ruas desde que seu lar falira aos 9 anos de idade, hoje você encontrará uma loja de roupas para recém-nascidos no lugar. Ironia? Não importa. Sabe-se que a mendiga era movida à música, pois eram seus cantos diários que garantiam seu pão de cada dia, ela cantava Raul Seixas e Cazuza, fazendo com que as pessoas a pagassem com moedinhas, não era muito, mas dava para comprar um pão e sobreviver honestamente, coisa que ela valorizava. Ela cantava nos semáforos, e costumava pedir esmola, muitas pessoas a julgavam mal, achando que ela era drogada e havia sido expulsa de casa, ou fugido, que usaria os trocados para sustentar o vício, o que era injusto, ninguém nunca a via usando drogas. Nem mesmo lícitas. Alguns costumavam chutá-la, pisá-la e cuspir na pobre moça, que não tinha escolha, a não ser sobreviver a seu modo. Naquela tarde de segunda feira, a moça estava sentada próximo a uma loja de eletrodomésticos, cantando para ganhar a vida, quando de repente, o vento a traz um papelzinho. Um bilhete de loteria, a menina o pega, e observa os números marcados, a televisão da vitrine anunciava sua glória: havia vencido.
Estava eufórica, mas tentou se acalmar, dirigindo-se à loteria mais próxima do lugar onde se encontrava, recebendo o prêmio milionário, além da casa, carro e moto, os automóveis ela guardara pra quando pudesse dirigir. Graças ao dinheiro, comprou roupas, eletrônicos, calçados, aprendeu a cozinhar e a ser independente. Contratou uma professora para dar aulas em casa, já que seria humilhante frequentar a quarta série aos 16 anos, aprendeu a mexer em computadores, e conseguiu um respeitável emprego, para garantir sua riqueza. Mudou de visual, colocou alguns piercings e assinou um contrato com uma famosa gravadora, gostaria de ser cantora, primeiramente ela gravou vários covers, em seguida, compôs suas próprias canções. Apresentou-se em bares, e abriu vários shows incríveis, todos promovidos pelo seu agente. Das ruas aos palcos, quem diria? E tudo graças a uma ventania repentina numa tarde de calor escaldante. Estava rica, famosa e fazia o que mais amava, apenas sentia falta de alguém para compartilhar isso.
Em um domingo, a patricinha dos cabelos longos e morenos, mais conhecida como Milena, assistia ao Domingão do Faustão enquanto tirava o pó do Hack de sua enorme sala, irritada por ter que ajudar essa "velha dessa empregada", e então descobriu para onde o vento levou seu tão amado bilhete de loteria, pois reconheceu a mendiga que a pedia esmola de vez em quando. Era ela mesmo, Mirela Vasconcelos, agora conhecida como seu apelido: "gladiadora", que parece bobo, mas faz sentido, pois lutara como uma, desligou a TV, e terminou a faxina de modo raivoso, recusava-se a acreditar que essa "rockeirinha imunda" tomara o seu lugar no hall da fama, pois quem queria ser famosa era ela. Queria ser modelo, e falava isso diariamente para sua família "inútil".
Aproximadamente 23 minutos após Milena desligar a TV, Mirela relata para Fausto Silva: "Tem tantas pessoas por aí reclamando da família que tem, vivendo em uma vida confortável, e eu só queria ter uma para compartilhar minhas alegrias, eu passei por várias dificuldades, fui execrada e humilhada, enquanto que em outro lugar, haviam pessoas da mesma idade que eu, vivendo confortavelmente, reclamando de barriga cheia, e cuspindo no prato que come."

2 comentários:

  1. Olá! Adorei esse texto e a mensagem. Realmente o mau do mundo é que há várias pessoas reclamando de barriga cheias, até nós mesmo, às vezes. Enquanto há outros sem nada para comer...
    Beijos - http://otoemduvida.blogspot.com.br/

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  2. @Ó tô em dúvida O pior não é nem isso,o pior são pessoas como a da crônica, que ganham tudo de mão beijada, e são tão mimadas que acham que podem tudo. Um dia elas recebem "não" e acham um absurdo, o fim do mundo, terceira guerra mundial. Tem gente que é pobre, quase não tem nada, costuma passar fome, e mesmo assim arruma um jeito de dar risada e ser feliz a seu modo.

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