Reconhecimento atrasado

22 novembro 2013


São sete e quarenta e cinco da noite, ela chegou do trabalho do mesmo jeito que acordou: exausta, com dor nas pernas (era como se as pernas fossem mais pesadas do que o restante do corpo). Seu ânimo falsificado dera lugar à melancolia e ao pessimismo. Já não tinha motivo algum para lutar por uma causa perdida, mas ninguém o sabia, pois para as pessoas ela não passava de uma mulher séria, estressada e viciada em trabalho. Eram apenas tentativas falhas de se auto-preencher.
Como sempre, abriu a porta, as janelas e dirigiu-se ao seu quarto para guardar a bolsa. Mas dessa vez, não tinha banho, jantar ou faxina. Não tinham relatórios para fazer ou assinar. Nada de E-mails para enviar, atividades para executar. Nada além do sumo vazio da morte, sua alma já havia perdido a vida há tempos.
Ela deitou-se na cama, observando o teto com uma expressão pensativa e parada no rosto. Após aproximadamente uma hora de auto-destruição contínua, optou por levantar. Colocou os tênis que havia tirado para subir na cama, pegou as chaves do apartamento e saiu. A porta foi trancada, o botão do elevador foi apertado, e destinado ao quinquagésimo oitavo andar. Ela desceu e caminhou vagarosamente até as escadas que a levavam à cobertura, subira-as arrastando-se e muito lentamente, andou até a borda. Olhou para o chão, o trânsito aparentemente estava um inferno, como sempre, morar em cidade grande é assim mesmo. Mexeu no bolso procurando algo: seus tranquilizantes de tarja preta obtidos com um amigo distante, que nunca mais foi visto. Ela sempre carregava pelo menos uma cartela dentro do bolso, que era suficientemente espaçoso para mais uma, fitou a cartela, e novamente olhou para baixo. Começou a pegar comprimido por comprimido, e organizá-los na palma fria de sua mão, tomando todos de uma só vez, e engolindo-os sem nem tomar água. Sentiu uma leve tontura, que aumentava gradativamente, fazendo com que começasse a se sentir semi-desmaiada, como se o resto do mundo estivesse negro, e só ela estivesse ali, as vozes e barulhos eram inaudíveis (parecido com aquelas cenas de filmes e desenhos animados). Sem se atirar, sentiu que estava caindo, mas não chorou e nem gritou, os tranquilizantes a deixavam completamente sedada..
(...) Meia hora se passou, as pessoas passavam e se deparavam com uma jovem de aparentemente 24 anos, estatelada no chão da calçada, usando uma calça oxford, uma sapatilha preta com laço e uma camisa branca (roupa social). Seus cabelos eram longos e negros. Os comentários não cessavam, a cena foi muito inusitada para cada um deles. "Ela .  era maluca, não batia bem da cabeça, só pode", "Alguém por favor chama um médico", "Pra quê chamar um médico? Se ela queria morrer, deixe que morra!".
Mesmo após sua morte, insistiam em pré-julgar sem saber os motivos para tal impulso, chamaram um médico para que o mesmo decidisse o que fazer com o corpo, que não poderia ser velado pois a família morava longe. "Ela morreu no ar, durante a queda, aparentemente por pressão atmosférica e intoxicação causada por calmantes de tarja-preta", disse o doutor para a repórter que o entrevistou. E como não tinha mais o que fazer, enterraram-a em um lugar qualquer como se fosse apenas um mero lixo orgânico, pelo menos em vida era isso o que a moça sentia ser.
No Rio de Janeiro, uma família assistia em reunião a um jornal que ocorria ao vivo, cuja notícia do momento relatava o suicídio de uma mulher, moradora do centro de São Paulo. "Foi uma loucura, eu estava passando e ela apareceu como se estivesse caindo do céu, se eu não desviasse, cairia encima de mim!". "Eu era vizinho dela há mais ou menos 4 anos quando ela se mudou, nunca pensei que ela fosse capaz de tal ato, apesar de nunca tê-la visto sorrindo, e ela fizesse o tipo anti-social, eu nunca a ouvi surtando ou reclamando por motivo algum. Pra falar a verdade eu nunca ouvi uma só palavra vinda da boca dela. No dia ela chegou naturalmente, como se isso fizesse parte do cotidiano dela, não a ouvi gritar nem nada, achei que ela fosse resolver um compromisso e quando a vi caindo em frente à minha janela, achei que fosse impressão minha pois eu estava bebendo no momento, até resolvi dar um tempo por hoje."
Todos naquela sala caíram em prantos inconsolavelmente, a culpa os corroía e torturava sem marcar hora pro fim. "Eu não devia ter sido tão fria, era por isso que ela nunca desabafava, parecia nem ter problemas, mas a verdade é que ela não confiava mais em mim! Eu sou um monstro!", lamentava-se a mãe. "Eu cobrei demais dela, a coitada só queria ajudar e eu só reclamava! Eu queria não ter sido tão grosso, ela era tão sensível, era uma pessoa tão boa, sempre disposta a fazer de tudo por todos a quem amava!".
A irmã, no entanto, agiu de modo diferente e não pronunciou nada em meio às lágrimas, que rolavam silenciosas e tranquilas, pesando e arranhando seu rosto de garota de 14 anos de idade. Controlada demais comparada ao resto dos presentes no recinto. Continuou assim até a última lágrima sair, até que o rosto secou novamente e disse: 
"Todos queriam alguma coisa, mas deviam pensar nisso há muito tempo atrás, quando eu a via chorando e tentando esconder de vocês, como se estivesse cometendo um crime ediondo. Sempre nos demos bem, ela sempre me ofereceu apoio e conselhos, até mesmo quando se mudou, continuamos mantendo contato pela internet e pelo telefone. Sempre foi uma ótima pessoa, mas nunca conseguiu perceber isso porque ninguém permitiu. Enquanto estamos vivos, nossos erros e defeitos são diariamente apontados e esfregados em nossa cara, somos obrigados a ficar calados diante de gritos e humilhações patéticas, nossas qualidades e acertos quase não são vistas, tanto é que passamos a duvidar de sua existência. Mas depois que morremos, não importa se já cometemos assassinatos, até mesmo psicopatas passam a ser dignos de pena, amor e admiração. Todos viram santos depois da morte."
Dito isso, manteve a calma e levantou-se, andando até o quarto, deixando para trás os olhares perplexos e reflexivos que sem notar, recebeu de seus pais. 

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