Assinado... a morte.

10 dezembro 2013


Querido... seja lá quem esteja lendo. Venho por meio desta, desabafar algo que anda preso em mim durante muito tempo, é estranho para vocês, mas a morte também sente. 
Hoje em dia, a grande maioria me condena, não sou mais eu quem condena as pessoas: elas me condenam. Como se eu fosse um monstro, uma coisa ruim. O fim de todos os sonhos e esperanças. O fim de toda a positividade (às vezes ela termina antes mesmo que eu possa pensar em chegar). Talvez eu não seja tão ruim, afinal, cada vez mais pessoas desejam a minha companhia. Dizem que é vazia, mas um vazio bom. Um vazio aliviador, isento de todo e qualquer tipo de sentimentos. Um vazio que põe fim a qualquer tipo de dor ou sofrimento.
Milhões de pessoas nesse exato momento estão: com o coração partido, com saudade de algo ou alguém que nunca voltará, com sentimentos de remorso, atordoadas por brigas, massacradas por pensamentos, sofrendo por amores e amizades enganosos, decepcionadas, ofendidas, excluídas, amarguradas... é difícil dizer quantas pessoas se sentem tão mal em apenas um dia, mas todas desejam a mim, muitas até decidem me encontrar. Algumas vão até o ponto mais alto de um determinado prédio, e atiram-se da janela. Outras tomam todos os comprimidos do remédio mais forte que tiverem. Outras tomam um líquido tóxico, mais conhecido como veneno. Outras dão um tiro em si mesmas, e outras preferem se enforcar. Todas elas veem em mim, a morte, como o fim de seus problemas, uma possível solução.
Irônico é ver o alvoroço que seus familiares, amigos, professores e outras pessoas fazem quando descobrem o ocorrido, quando descobrem que fui chamada. Irônico é ver eles em prantos por uma pessoa que em vida, só sabiam xingar, crucificar, condenar, humilhar... será que é amor? Ou é apenas remorso? Ou talvez seja a junção dos dois... não sei. Humanos são complicados demais para mim, eles me confundem cada vez mais, a cada dia que passa. Não quero apenas desabafar, não sejamos egoístas. Eu vim também, oferecer um conselho, não a quem me chama ou pensa em me chamar, mas às pessoas que os cercam:
Não deixe para amanhã o que se pode fazer hoje, deixem bem claro a essa pessoa o quanto ela é importante. Deixem bem claro para elas que sim, elas são boas pessoas. Que sim, elas merecem a felicidade. Que sim, elas têm a vida toda pela frente. Às vezes é só disso que elas precisam. Saber que suas vidas têm uma razão, saber que suas vidas fazem mesmo sentido.
É muito bom se desejada por elas, mas é uma pena saber que todas elas estavam chorando enquanto me chamavam, é avassalador saber que a maioria não estava nada bem. Ninguém jamais me chamaria quando está feliz, pois eu coloco fim nos sentimentos, lembra? Até mesmo os felizes. Mas nem sempre é culpa minha. Às vezes as pessoas não me chamam intencionalmente, mas me atraem em um ato tolo e inconsequente.
Quase todos os dias eu preciso enfrentar trânsitos engarrafados para me encontrar com o responsável por um acidente, e seus possíveis acompanhantes. Dependendo do tamanho do ferimento, sou obrigado a levar a pessoa comigo, e pessoas que nem possuem culpa. Não me julguem: é apenas o meu trabalho.
É revoltante saber que o culpado chegou a uma situação dessas porque estava falando no celular, dirigindo sem cinto de segurança, ouvindo música alta e se empolgando, bebendo, fumando, embriagado, etc. É como se eles não tivessem um cérebro para usar! Nem eu o possuo, afinal, sou um espírito. Sem a posse de um cérebro, cumpro meu trabalho com muito mais competência do que algumas pessoas que o possuem, mas não usam. Achando que acidentes escolhem hora, local, pessoas... elas escolhem sim, mas não avisam. Não existe um lugar específico, é sempre aleatório. Talvez seja melhor mesmo que eu as leve, assim, as impeço de enfrentar sequelas graves, causadoras de sofrimentos enormes. As impeço de perder os movimentos, às vezes até a fala e a visão. As impeço de causar esses sofrimentos em outras pessoas. As impeço de fazer com que eu leve outras pessoas, causando o sofrimento de seus amigos e familiares. Fico indignada ao saber que adultos falam diariamente para seus filhos: "Não precisa colocar o cinto, nós só vamos até a escola, não vamos para a praia". E DAÍ? Desculpa... eu me excedi, mas fala sério. Eles acham que podem prever o futuro, acham que podem dizer quando eu irei trabalhar ou não. Adultos que se acham responsáveis e maduros falam isso sem saber o quanto estão sendo irresponsáveis e ignorantes ao possibilitar o meu trabalho. Morrer perto de casa parece impossível para eles, mas não é. Eles podem não ser tão barbeiros, mas outras pessoas podem ser e baterem em seu carro. Perto de casa mesmo, pode ser até o seu vizinho.
Enfim, são inúmeros os sentimentos e pensamentos que preciso descrever, mas hoje, falarei apenas destes.
É muito bom ser chamada, desejada... mas às vezes me indigna o modo como isso acontece.
Assinado... a morte.

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