A estranha

22 fevereiro 2014


Era um fim de tarde qualquer, em uma avenida qualquer, e elas, eram duas quaisquer. Uma loira e uma morena. Típico? Talvez nem tanto.
A morena usava um short de cintura alta, com uma blusa tomara que caia. A loira usava um jeans com uma blusinha cinza, e rasteirinha prateada. Dessa vez a loira não se maquiou, nem prendeu o cabelo (estava com preguiça de fazer isso).
A morena era divertida, comunicativa, adorava ir em festas, parques, cinema, enfim... adorava sair. 
A loira era séria, quieta, e odiava sair de casa. Ela preferia ler, assistir filmes e seriados, ou até dormir, não possuía tanto ânimo para dar "bandas" e "rolés", na verdade ela não via muita graça nesse tipo de coisa. Não sabia qual era o sentido de sair de casa, só pra caminhar e ficar conversando sobre coisas fúteis que para ela não faziam diferença nenhuma.
Mas dessa vez não tinha volta, ela tinha que sair um pouco, caminhar, sentir o ventinho do fim de tarde, e "viver", segundo a teoria de sua melhor amiga claro, porque a dela raramente estava certa. 
Ah, é, seus nomes. A loira se chamava Nanda, e a morena se chamava Alana. Elas eram bem diferentes, e muitos não entendiam como Alana conseguia ser amiga de Nanda, a estranha. Era sempre tão quieta, séria... não se animava para quase nada e achava graça de poucas coisas. Estava sempre lendo, se irritava com facilidade... o que ela tanto via naqueles livros, afinal?
Para muitas pessoas, a diferença é um muro que separa pessoas de mundos diferentes, impedindo-as de seus amigos, mas, felizmente, essas duas tinham o que chamamos de respeito: a marreta que serve para quebrar esse muro por inteiro. 
Elas estavam caminhando, conversando sobre assuntos aleatórios, e Nanda já queria ir embora. Estava cansada e com dor nos pés. 
- Aff, mas já? Não, vamos andar mais um pouco...
Cansada e com dor nos pés Nanda foi, mesmo sem aceitar, mesmo com um pouco de raiva. E se agora ela sentia raiva, espera até encontrarem com Vanessa, uma ex-colega do curso que a Alana fez: Vanessa usava um short minúsculo e uma blusa menor ainda, com piercing de umbigo, e trazia em mãos uma carteira de cigarro, em plenos dezesseis anos. Ouvia funk alto no celular, e falava mais alto ainda coisas extremamente bagaceiras. Tudo o que Nanda repudiava em uma só garota.
Enquanto caminhavam, Nanda praticamente desapareceu, porém, continuou ali, ouvindo suas amigas conversarem sobre coisas que não a interessavam: maquiagem, novela, BBB, fofoca... essas coisas faziam com que ela quisesse vomitar, ela prefiria mil vezes estar lendo ou ouvindo música agora. 
Só para variar, ela havia sido praticamente excluída dos assuntos, estava se sentindo deslocada e estranha, como se não fizesse parte dali (e não fazia). Ela queria sumir, queria dizer tudo o que pensava naquele exato momento e ir embora para casa, dormir infinitamente. Definitivamente, não sabia bem o por que de ter saído de casa, era bom ver sua melhor amiga, mas não era tão bom arcar com o risco de encontrar pessoas como Vanessa no caminho e ter que aguentar calada, toda besteirada fútil que saía da boca de pessoas como ela.
Por mais que a maioria prefira se afastar dela por isso, Nanda gostava muito mais da companhia de um livro do que da companhia de certas pessoas, e não se importava muito com o risco de terminar sozinha: ela preferia ficar sozinha do que ter que mudar para ter amigos. Se fosse para ser aceita, tinha que ser assim, como ela era: a "estranha" que não sabia viver.

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