Operação Cupido, Agência de Namoro

21 fevereiro 2014



Ficava no oitavo andar de um prédio comercial, em uma sala climatizada. "Vai lá, efetue seu cadastro, retire sua ficha. Quem sabe não acaba encontrando exatamente o que você tanto almeja?". E foi pela sugestão de um amigo que ela decidiu visitar o prédio da agência de namoros, Operação Cupido. Cujo nome foi inspirado em um filme... qual filme será que é?
Dessa vez não se arrumou tanto assim, colocou jeans, all star e uma camiseta preta de uma banda da qual ela já nem era tão fã assim. Nem sequer colocou maquiagem, e com um rabo de cavalo, pegou a bolsa, o cartão do ônibus, o celular, e foi. "Se for pra alguém gostar da minha aparência, que seja a natural", pensou.
O ônibus demorava tanto pra chegar que ela não resistiu a uma reclamação no twitter, imaginando se ela acharia pelo menos UMA pessoa que conseguisse aguentar seu mau-humor, nem de festas ela gostava, preferia mil vezes ler do que ver aquele bando de gente retardada dançando, bêbada, e pra comemorar o que? O fato de ter 23 anos, ser mimada pelos pais, não ter emprego, não ter estudo, e ainda ter a capacidade de se orgulhar disso? "Não obrigada", ela pensava, "não é esse tipo de gente que eu quero conhecer".
Dessa vez ela tentou diferente, tentou acreditar que daria certo, que esse método ajudaria ela a encontrar alguém que a aceitasse do jeito que ela era, alguém que talvez, até se identificasse com a personalidade "complicada" dela, mas que para ela era simples, as pessoas é que eram ignorantes demais pra entender a opinião dela.
Chegando lá, ela retirou a ficha, tomou dois copos de água, e sentou na última cadeira vazia que tinha naquela sala. "Pelo visto eu não sou a única encalhada que tem dificuldade pra achar o par ideal", pensou. Mas já sabia bem que podia demorar para achar quem ela precisava, afinal, se por uma agência de emprego ela demorou meio ano para encontrar o emprego dos sonhos, em agências de namoro deve ser a mesma coisa ou até pior: no trabalho ninguém é autêntico, se você for estressado, vai ter que ser mais calmo, se você é calmo demais, vai ter que acelerar, e por aí vai. E ela queria alguém que a aceitasse como ela era, com ela não tinha essa história de mudar pra agradar, não! Nem que ela fosse mau humorada assim logo no começo do relacionamento, se for pra gostar dela, tem que ser pelo que ela é, não pelo que ela parece ser, muito menos pelo que dizem que ela é. 
Depois de mais ou menos quarenta e cinco minutos, chegou a vez dela ser atendida. É... os dias daquela agência eram bem lotados. Enfim, ela sentou-se defronte à recepcionista e começou a falar sobre suas preferências em um homem: 
- A aparência dele não importa tanto, eu quero uma pessoa que não tenha preconceito com nada, que não seja muito grudenta, mas também não seja muito ausente, não quero que ele seja romântico, prefiro que seja inteligente e....
- Eu vou precisar do seu RG e do seu CPF.
Como ela não conseguia decorar o número dos seus documentos, abriu o zíper de sua bolsa nude, e retirou-os de lá de dentro. 
- Pronto, estão aqui.
- Aham... vamos ver. Aqui diz que você precisa de uma pessoa fiel, que não tenha preconceito com nada. Ele não pode ser muito grudento, mas também não pode ser muito ausente, você também não gosta de homens românticos, e prefere alguém que seja inteligente e sério na medida certa, mas que saiba te fazer rir de vez em quando.
- Isso, e ele precisa ter mais ou menos a minha idade, 23 anos... parece impossível....
- Vejamos... hmm. Que tal este? Rafael de Oliveira, 24 anos. Se formou recentemente em design, mas prefere especialmente o design gráfico. Trabalha como gráfico, faz isso porque possui paixão desde que criou um vlog, e desde então não parou mais. O vlog dele não é famoso, mas tem um bom número de acessos. Ele não suporta preconceito, e gente melosa repuna ele até o último pelo que ele disse aqui. 
- Parece bom pra mim, onde ele mora?
- Ele mora em São Paulo, mas aqui está mostrando que se ele amar mesmo uma garota, é capaz de tudo por ela, mesmo não sendo muito romântico, ele não é do tipo que desiste.
- Hum... não sei, não confio muito em namoro virtual...
- Ah, mas ele pode se mudar, caso vocês acabem gostando muito um do outro...
- Tá... vou tentar... 
A recepcionista enviou um e-mail, como se fosse uma solicitação de interesse ao rapaz. Nele continha uma mensagem pré-formulada, junto ao perfil da agência de namoro da garota. Nesse perfil mostrava uma foto dela, detalhes da personalidade dela e as redes sociais comuns que qualquer um usa.
Em casa, viu que tinha solicitação de amizade no Facebook, era um tal de... Rafael de Oliveira, morador de São Paulo. Eles começaram a conversar, e se identificaram muito um com o outro, porém, ela tinha vários segredos que só conseguiria contar para ele com o passar do tempo, conforme fossem conquistando a confiança um do outro. Sim, ela era desconfiada e misteriosa, nem ela mesma teria paciência para lidar consigo mesma, ainda mais porque ela não tinha paciência com quase nada. Mal sabia como mantinha um cargo tão bom em sua empresa! Enfim, por incrível que pareça, passaram-se meses, outubro se foi, novembro também, dezembro foi junto... já foi janeiro, e bye bye fevereiro. E nada do Rafael abandoná-la, não é que ele realmente não era de desistir fácil? 4 meses e ele continuava o mesmo, sendo que qualquer outra pessoa perderia a calma no primeiro mês, se não fosse na primeira semana. E baseado nisso, e na política de zero preconceito que ele costumava manter, ela resolveu se entregar, contou seu maior segredo. Mas é só para ele... para você não, talvez você não seja confiável.

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