O Diário

16 abril 2014



Era domingo a tarde, ela havia chegado de mudança há algumas horas, e estava quase terminando de desencaixotar suas coisas. Ninguém entendia porque ela havia escolhido um apartamento, mas para ela era muito óbvio: estava indo morar sozinha em um bairro de segurança duvidosa, por isso morar em apartamento era a melhor opção. Além disso, por serem pequenos, ofereciam uma facilidade maior na hora de decorar, organizar, limpar, e principalmente, pagar as contas. Ela ganhava bem, mas gostava de fazer com que seu dinheiro rendesse, não odiava compras, mas preferia comprar tudo pelo menor preço possível.

Agora faltava apenas mais uma caixa, ela a deixara por último por um motivo: tinha um papel colado em uma de suas laterais, com os dizeres: "volta para o passado" escrito nele. Dentro dela, haviam vários diários e cartas colocados organizadamente, o que se tratando dela, era uma bela novidade: nunca foi o tipo de pessoa organizada (ela bem que tentava, mas era atrapalhada demais para isso, e a correria do dia a dia não deixava que ela guardasse as roupas quando ela as tirasse e estivessem limpas). 

Decidiu abrir a caixa para ler as cartas o os diários que dentro dela haviam, era incrível como haviam cartas de desculpas lá dentro. As pessoas sempre acham que pedir desculpa e dizer "estou com saudade" é o suficiente, até ela achou que um dia, perdoaria alguém caso essa pessoa sentisse sua falta. Ela nunca se sentiu importante para alguém, e fazia de tudo para valorizar quem demonstrava amá-la. Mas, ao mesmo tempo, sempre teve dificuldade para confiar nas pessoas, e essa dificuldade ficava maior quando percebia que era o milésimo pedido de desculpas de uma pessoa, que vinha sempre pelo mesmo motivo. 

Quando leu os diários, infiltrou-se no seu passado, era como se ela adentrasse um portal do tempo. Podia ver tudo o que lia como se fosse um flash-back, e ficava cada vez mais surpresa com o quanto mudara com a vida. O primeiro diário relatava fatos e sentimentos de sua vida aos 16 anos de idade, e agora com 25, estava impressionada com o quanto amadurecera com os anos. Ela era uma completa idiota, mas não se dava conta disso, não do jeito certo. Porém, essa cegueira não a impediu de aprender com a vida.

Ao fechar o último diário, viu que já era meio tarde: 20 para as oito da noite, e ela estava com fome. Foi para o quarto, pegou seu pijama, e foi ao banheiro tomar um bom banho. Em seguida, pegou o telefone e ligou para o disque-pizza, já que estava cansada demais para cozinhar hoje.

Decidiu comer enquanto assistia pela enésima vez o filme Efeito Borboleta, entretanto, não prestou atenção em uma única cena. Estava perdida em seus pensamentos filosóficos, ela possuía o hábito de pensar nesse tipo de coisa desde os 16 anos, e isso aumentava a cada ano que passava. 
Seres humanos... se acham a espécie mais racional da natureza, mas são patéticos o suficiente para precisar de um laço da vida até se tornarem independentes e maduros, se é que se tornam. Os outros animais eram bem melhores, o cachorro, por exemplo, é amamentado por um tempo, e assim que termina essa fase, não precisa mais da mãe. A princípio ele seria um animal selvagem, como o leão e o tigre, mas fora domesticado. Sorte dele, pois alguns animais viraram roupas novas. O gato é mais independente ainda, ele provavelmente não gostou de ser domesticado, pois vive fugindo da casa de seu dono. 
Os seres humanos não, são tão burros e ignorantes que se tornaram dependentes de suas próprias criações. Quer um exemplo: deixe um adolescente sem celular, televisão e computador por um dia para ver o que acontece. 

Era lamentável a necessidade suprema de apanhar da vida, para só depois amadurecer de verdade. Por que isso acontecia? Ela não tinha a resposta, nem mesmo os maiores filósofos a possuem. 
Passaram-se duas horas, o filme terminou. Ela foi para o banheiro, escovou os dentes e pegou um livro para ler até dormir, pois segundo seu passado, pensar antes de dormir é um erro que ameaça sua noite: você pode não dormir por causa deles.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

E então, o que achou do post? Gostou? Odiou? Achou uma bosta e tá a fim de me mandar pra puta que pariu, e dizer que eu sou uma escrota? Fala aí!