Só mais um flash-back...

17 abril 2014



Terceiro ano. Ela passara o ano inteirinho fazendo o possível para tornar-lhe ótimo, para uns isso é fácil, para outros, mais difícil, dependendo do grau de otimismo ou negatividade que a pessoa tem.
Ela sempre foi um pouco anti-social, não gostava muito de sair de casa, não fazia questão de ter muitos amigos e odiava pessoas que achavam graça em tudo. Não era um exemplo de seriedade, mas alguns assuntos não foram feitos para serem engraçados, eram sérios e fazer piada sobre eles era como garantir seu lugar no inferno. Não que ela acreditasse em Deus, quem iria entender, mas ela era ateu. E não precisava fazer piada sobre ou xingar religiões para mostrar isso, ela era de uma família católica, uns mais praticantes que outros, e aprendera desde cedo que religião não é piada. Antes que fujamos do assunto, seus maiores problemas na escola sempre foram as pessoas, em sua infância, era um alvo constante de piadas, rejeição e fofocas. Era como se ela fosse um brinquedo para os outros, e não gostava nem um pouco de se sentir usada. Não era o tipo de criança indefesa, sempre foi irritada, e quem exagerasse nas piadas sobre ela, sempre acabava apanhando. Não que isso os afastasse, claro. Brasileiros não desistem, e eles eram persistentes até demais quando se tratava de ofender ela. 

Ao crescer, perdeu a dificuldade de fazer e manter amigos, aprendeu que algumas coisas podem ser engraçadas sim, entretanto, assuntos sérios e pessoas não foram feitos para serem alvos de piada. Seus amigos a consideravam divertida, simpática, responsável e madura, apesar de ser um pouco brava (se algo a desagradasse, fazia questão de demonstrar com clareza, e agora, isso finalmente passou a funcionar, apesar de ela já não bater mais nas pessoas). Ainda tinha um pouco de timidez em si, e nos trabalhos que envolviam apresentação, tentava não olhar para a plateia pois sentia-se desconfortável e constrangida com todas aquelas pessoas a encarando. Se fosse em grupo, recusava-se a ser a primeira a falar, precisava que uma ou duas pessoas falassem antes dela, porém quando ela falava, não passava nenhum sinal de timidez, ao contrário, se mostrava extrovertida e explicava bem, sem ler nem nada (ela odiava quem lia nas apresentações, pois o certo seria ler, aprender e explicar do melhor jeito possível, não seria?).

O ano não demorou muito a passar, e a noite de sábado tinha uma promessa a cumprir. 
Eram oito e quarenta e cinco da noite, ela estava em seu quarto se arrumando para o baile de formatura (sua escola juntara bastante dinheiro com rifas e sorteios para essa noite). Já tomou banho, secou o cabelo, e já fez sua maquiagem, igualzinha a de uma tutorial que assistira no You Tube e anotara em um caderno. Precisava fazer algo novo, pois todos os dias fazia o mesmo tipo de maquiagem: sombra clara ou escura (nunca colorida demais), lápis, rímel, delineador e um batom nude. Às vezes abria mão do delineador e carregava mais no rímel, mas essa noite ela precisava inovar de verdade, e não apenas fingir que inovava. E conseguiu, todos ficariam surpresos. Colocou um vestido que fez questão de comprar ao invés de alugar, ela sabia que talvez nunca mais o usasse, mas queria tê-lo como recordação de um ritual de passagem. Seu cabelo era curto, mas conseguiu encontrar um penteado milagroso que a deixara realmente linda, e segundo seu namorado, a mais linda da festa.

Enquanto se arrumava, pensava na vida e viajava no tempo, voltando para os mais variados momentos bons que passara na escola que ela dizia detestar. Lembrou-se dos passeios que fora: os zoológicos e circos na infância, os balneários, a colônia de férias que foi no último ano do Ensino Fundamental... as risadas que deu com as poucas pessoas as quais ela simpatizou, os professores engraçados que faziam a turma toda rir, os professores irritados que também faziam a turma rir, porém, não na frente deles, os momentos engraçados. Lembrou-se dos tombos e boladas que já levara na educação física, e do quanto ela deu risada deles no ato, lembrou-se das piadas que contara e fez todos os seus amigos rirem sem parar, lembrou-se dos trabalhos em grupo feitos na casa de alguém, e do tempo que eles perdiam dando risada antes de fazer o trabalho. Ela podia ver todas essas cenas na sua frente, como se assistisse um filme, todinho em flash-back. Ela desejava voltar atrás e reviver uma por uma, e admitiu para si mesma que, talvez, sentiria falta da escola. Apenas para si mesma, ninguém precisava saber disso.

O tempo passou, agora já eram dez e quinze. Sua família havia entrado várias vezes no quarto para tirar fotos de sua produção, pois estava pronta, mas não queria sair do quarto tão cedo. Pegou um caderno e anotou um poema após outro em algumas folhas, ela não entendia porque sempre se inspirava em momentos como esse. Ela estava passando perfume quando a campainha tocou, era seu namorado disposto a levá-la de carro para o baile de formatura.

Ela tinha certeza que essa noite se tornaria mais uma cena para assistir em seus flash-backs de vez em quando, e sabia que não era a única com essa certeza.


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