Tentativa de Fuga

15 abril 2014


Era a sua primeira consulta com o psicólogo, cuja consulta teria desconto graças ao convênio que seu emprego a oferecia. Era um milagre estar indo tão bem, dessa vez ela era a favorita do chefe, ele a disse que jamais a demitiria, a não ser que a empresa estivesse falida ou ela mesma pedisse demissão. 
Se tornou bem próxima de seu chefe, talvez mais do que o normal, haviam se tornado uma espécie de melhores amigos. Ela amava aquela empresa, pois ela não é composta por funcionários divididos em hierarquias, e lá não existia superioridade. Eram uma família.
Quantas vezes você terá a chance de trabalhar numa empresa na qual pode contar tudo a seu chefe sem correr o risco de ele te demitir achando que alguma hora poderá tornar-se inapta para o cargo? Ela sabia que isso era raro, mas não soube bem o que pensar quando ele recomendou que fosse em um psicólogo. Segundo ele, ela era a funcionária mais competente que essa empresa já teve, e ela sabia que desde o início, tivera feito tudo certo. Mas essa recomendação... seria isso um mal sinal?
De qualquer forma, ela queria se livrar das coisas que sentia e não contava a ninguém, nem mesmo a seus melhores amigos. Lembrou-se de todas as vezes nas quais pensou em fazer terapia sem ter certeza de que isso adiantaria: quantas pessoas vão e passam a vida frequentando um consultório sem ter grandes resultados? Quantas pessoas vão e saem de lá ainda piores? Várias, inúmeras, incontáveis. Imaginava se seus pais estavam certos há alguns anos quando disseram que era apenas uma fase, e imaginava também se não era apenas a personalidade dela. Depois se deu conta de que estava fazendo sozinha o que o psicólogo deveria fazer: analisar-se. Foi então que decidiu pagar para ver, literalmente, pegou o telefone, ligou para o número que estava no cartão que seu chefe lhe dera, e marcou sua consulta.
Estava frio, vestiu um casaco militarista preto, jeans consideravelmente escuros e coturnos igualmente pretos (ela realmente amava preto), e como o vento lá fora estava cruelmente frio, colocou uma manta cinza escura, pois seus cabelos curtos não a protegiam muito no inverno, apesar de serem mais fáceis de cuidar. Foi até a parada, o ônibus demorou 15 minutos para chegar na parada e mais 15 para levá-la ao seu destino. A caminhada até o consultório era de 10 minutos.
Chegando lá, deparou-se com um prédio não muito grande, com algumas escadinhas para subir. Ela subiu, e andou até a primeira porta, onde havia uma placa dizendo: "Dr. Paulo Cezar Goulart Psicologia", e então adentrou.
Cadastrou-se na recepção e sentou em um dos sofás macios da sala de espera de tamanho mediano. Decidiu folhear uma revista, mas não demorou muito para que fosse atendida. 
 - Merda - Pensou - Ainda nem sei o que falar para ele, por que não planejei isso em casa?
Sentou-se na cadeira em frente ao médico que a olhava com um tom sério, porém, não arrogante. Sentiu-se constrangida em meio ao silêncio que havia entre eles, sempre amou o silêncio, mas este a perturbava.
- O que te traz aqui hoje, senhorita Queiroz?
Não sabia bem o motivo, mas achou estranho ser chamada de senhorita Queiroz. 
- Estou naquela fase do "Odeio a mim mesma, odeio as pessoas, odeia a vida e odeio o Mundo". - Disse, pensando no quanto parecia ridículo pagar uma pessoa para falar esse tipo de coisa. 
- Há quanto tempo mais ou menos você se sente desse jeito?
- Não sei... acho que me perdi. 
- Não há nenhuma pessoa a qual você ame ou confie suficientemente para tentar diminuir esses sentimentos?
Essa resposta deveria ser óbvia para qualquer outra pessoa que estava pagando alguém para desabafar, mas não era tão óbvia assim para ela.
- Algumas pessoas, poucas. Sei que elas se importam e querem ajudar, mas não fazem a mínima ideia do que fazer. Tentam o máximo que podem mas não funciona, depois parece que eu insisto em frustrar a tentativa de ajuda delas. Sei o quanto isso é desesperador, por isso não desabafo para ninguém há anos... recentemente falei uma coisa ou outra para meu chefe, pois somos bem próximos, mas não falei tudo. E não falei sobre isso. Todos os dias eu sorrio, dou risada, sou o mais sociável possível, finjo que está tudo bem e todos acreditam, quando na verdade, eu só queria ter o direito de me trancar no meu quarto e nunca mais sair de lá. Infelizmente não posso fazer isso, e sei que várias pessoas guardam seus problemas para si, mas... pra mim é tão pesado e doloroso. É como se quanto mais eu tentasse fugir da minha dor, maior ela ficasse. Quanto tempo acha que isso irá durar?
- Não posso oferecer-lhe essa resposta logo na primeira consulta, pois é necessário uma análise maior, porém, é provável que dure menos do que você pensa. Por enquanto, recomendo que ao acordar, você tome este anti-depressivo, ele fará com que você sinta uma  considerável melhora. - Ele disse, entregando-a um receituário.
- Psicólogos - Ela pensou - Pegam seu dinheiro, receitam qualquer coisa e tentam fazer com que você acredite no final feliz de algo que pode não acabar nunca.
Apesar disso, no fundo ela tinha um pequeno sinal de esperança. Era como um mini-vaga-lume voando numa noite sem estrelas ou luar, mas era o suficiente para que não desistisse do tratamento. Não depositava muita fé nele, mas torcia para que funcionasse.
Será que funcionaria mesmo? Só o tempo poderia dizer.

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