A Leitura

19 junho 2014



Ser professora de português em uma turma de oitava série não é bem o que eu chamo de conto de fadas. Oitenta por cento dos alunos têm treze para quatorze anos, e os outros vinte por cento tendem a ser repetentes. Não que eles tenham repetido em português, é claro. Mas também, não que não tenham repetido.
Muitos percorrem os anos sem perder a dificuldade com a gramática e a ortografia. Alguns cometem erros clássicos, outros, uma façanha. Nessa idade já não deveriam existir erros, mas existem (e como!).

Acredito que muitos destes erros poderiam ser evitados se os alunos adquirissem o hábito de ler com mais frequência. 
Eles aprenderiam valiosas lições de vida, ganhariam um senso crítico mais elevado, e com isso, teriam uma mente mais forte e aberta.

Pensando nisso, pedi para que o bibliotecário da escola ligasse para a editora e pedisse vinte e oito cópias de um livro do John Green, para que eu os distribuísse na minha classe.
Não esperava muita empolgação da parte deles, honestamente, achei que todos reclamariam.
Mas os fatos me surpreenderam: todos aceitaram a proposta de cabeça baixa, e sala foi inteiramente silenciada pelo prazer de uma boa leitura.

Um dos alunos levantou-se de seu lugar e caminhou até a porta, eu me preparei para chamar atenção pois achei que ele fosse sair da sala, mas ao invés disso, ele sentou na saída para ler confortavelmente, encostando-se nas bordas da porta. 
Ele era o mais bagunceiro, sempre com uma piada na mente e uma crítica na língua, sempre tinha do que reclamar. Nunca abria mão de manifestar seu descontentamento, e às vezes, fazia com que eu perdesse toda a minha aula, era muito frustrante. 
Quase não fazia nada, e conversava o tempo inteiro sobre assuntos que não diziam respeito à aula.

Entretanto, dessa vez foi diferente: ao terminar o livro, ele continuou em silêncio até que todos o terminassem. E quando finalizaram, ele foi o primeiro a elogiar o autor e oferecer a mim uma opinião própria e bem formulada, como se essa fosse uma de várias leituras que ele tivesse colecionado. Como se ele estivesse acostumado a ler, para saber exatamente o que é bom para ele e o que não é.
Não posso dizer que isso não me surpreendeu, e é claro, pretendo repetir esse episódio mais vezes. Tenho fé de que a redação desses jovens melhore, e tenho ainda mais fé de ouvir meu aluno mais bagunceiro filosofando outra vez. Pois agora tenho a impressão de nunca tê-lo conhecido realmente.
E afinal, qual é o professor que realmente conhece seus alunos?


Nenhum comentário:

Postar um comentário

E então, o que achou do post? Gostou? Odiou? Achou uma bosta e tá a fim de me mandar pra puta que pariu, e dizer que eu sou uma escrota? Fala aí!