Fadiga Dominical

06 setembro 2014


Domingo. 
Você acorda e olha para o celular que está logo ao lado, no criado mudo. São dez da manhã. A sua lista de afazeres surge em fade in na sua mente: 
"Almoço, pesquisa de geografia, exercício de física, visitar parentes, terminar sua leitura, arrumar o quarto, arrumar a casa.Viver".
Seu corpo inteiro dói a cada movimento, ele está enferrujado por completo. Ele é agora a soma de todas as suas lutas diárias ao decorrer da semana. O produto de todos lugares os quais não queria ir, mas foi, por obrigação. O resultado de todos os sorrisos que você não quis dar, de cada assunto que não quis puxar, de cada riso que não quis puxar, de cada piada que não quis contar. Mas deu, puxou, soltou., contou. Tudo para que ninguém perguntasse se está mesmo bem. Tudo para que ninguém tentasse decidir se é válida ou não a sua preocupação com seus problemas.
Vencida pelo cansaço, você vira para o outro lado. 
Cinco minutos depois, você acorda e olha para o celular que está logo ao lado, no criado mudo.
São três horas da tarde, mas você não está com fome. Você tenta recordar-se de seus afazeres, o esforço é feito em vão:
"O que era pra pesquisar mesmo? Pra quando é essa porra? Ah, foda-se, não preciso de nota nisso mesmo. Mas e os exercícios, são de matemática ou são de química? Não, não, eram de biologia... merda, desisto. Eu tô fudida.".
Vencida pelo cansaço, você novamente vira-se para o outro lado.
Está escuro, a cama está confortável e quente, seus olhos estão pesados e fechados, mas você não dorme.
Você se culpa por tudo o que não fez. 
Sua lista de afazeres vai, aos poucos, ressurgindo em sua mente, de um modo bagunçado e enlouquecedor:
"Física... parentes... ... Geografia... nota alta ... reprovação ... leitura ... ".
Você não consegue discernir nada. Adjetivos atormentadores circundam-nas:
" Inútil, idiota, fraca, imbecil...".
Você quer levantar, seu corpo dói. Você permanece na cama. Seus olhos pesam mais do que sua cabeça.

Cinco minutos depois, você olha para o celular que está logo ao lado, no criado mudo. São sete da noite. Há treze chamadas não atendidas e sete mensagens não respondidas. Que porra de Whatsapp. Você ignora tudo.
Você se culpa novamente por tudo o que não fez. Coberta de vergonha, sente sua face avermelhar-se. Você puxa o edredon até a cabeça e enterra seu rosto no travesseiro, como se isso fosse completar suas atividades por você.
Você prevê a insônia que terá por ter alimentado o ócio durante toda a tarde, e a fadiga que virá proveniente dela. Seu desejo é sumir.

Cinco minutos depois, você olha para o celular que está logo ao lado, no criado mudo. São dez da noite. Você sente seu rosto tornar-se em roxo. Seus pensamentos te humilham. Sua energia foi sugada, você não some (muito menos dorme).


Alguns segundos depois, seu despertador toca: é segunda feira, seis da manhã. Você tem vinte minutos para se arrumar e sair, sem café nem alimentação porque não dará tempo. Por que o outro alarme não tocou?
A semana começa novamente, primeira luta de muitas. Quanto tempo isso irá durar?

Nenhum comentário:

Postar um comentário

E então, o que achou do post? Gostou? Odiou? Achou uma bosta e tá a fim de me mandar pra puta que pariu, e dizer que eu sou uma escrota? Fala aí!