Nem toda despedida é triste

14 outubro 2014


Dois anos haviam se passado desde que decidira partir (dois!), mas ela não havia esquecido. Sentia-se culpada de um jeito ou de outro.
Uma traição sofrida resultada em uma decepção sangrenta jamais poderia ser considerado pior do que o que sua amiga passara. Primeiro, culpou-se por falta de aviso. Mas que falta de aviso? Ela já não havia aconselhado milhares de vezes? Que culpa tinha ela se sua amiga precisava fazer tudo sempre do jeito dela? 
Ela sempre largava tudo para ajudar sua amiga, mas o egoísmo dela a feriu diversas vezes. Ela havia chegado no limite em uma época na qual apenas tragédias aconteciam, uma época na qual ambas estavam sofrendo, cada qual por seus motivos. Parecia errado ir embora justo naquele momento.
Mas não era. Ela já havia pensado nisso várias vezes, mas todos os motivos pareciam banais. Ela esquecia-se de observar os mais fortes: de que adianta lutar tanto para ajudar uma pessoa que sempre faz apenas o que quer? De que adianta apegar-se tanto a alguém que enxerga apenas os seus defeitos? 
Nada. Não adianta de nada para quem quer tanto ser feliz. Para quem deseja tanto o esquecimento, o desapego e a felicidade proveniente da solidão e da independência.

Mesmo assim, a culpa se recusava a sair da mente dela. "Você abandonou-a quando ela mais precisava por causa disso?", uma voz provocadora repetia isso em sua cabeça o dia inteiro. A voz não deixava que ela se lembrasse de quantas vezes sua amiga fizera o mesmo para ela, e de quantas vezes ainda o faria se ela não partisse. A voz era cruel e depreciativa.
Fazia alguns dias, ela havia começado um livro (mais um). Ela era viciada em livros desde sempre, mas agora precisava deles mais do que nunca para esquecer. Para relaxar. Para aliviar-se. Mas nem sempre funcionava: um trecho ou outro sempre a faria lembrar dessa e de outras histórias. E isso sempre a faria frustrar-se, chatear-se ou até mesmo chorar. 
Dessa vez não era apenas um trecho, era a história inteira. E isso a incomodava demais porque ela não podia largar o livro (ela nunca largava uma leitura, nunca. Mesmo se não gostasse, continuava apenas para ver se melhorava ou se o final compensava). Todos sabiam o quanto ela amava ler, e ela não queria que desconfiassem de que havia algo errado. Porque havia. Estava tudo errado. "Como eu sou idiota! Por que eu não esqueci essa palhaçada ainda? Por que ela tinha que ter voltado no começo do ano? Eu a mandei embora, mas e se voltar de novo? O que eu vou dizer? Eu não quero ser tão filha da puta, mas quando foi que ela se importou comigo de verdade?".

Como sempre, leu o quanto pode no intervalo. Tentou não ser séria demais e tentou não rir das gracinhas de certos colegas (a vergonha automatizava a reação. Não era pra eles pensarem que ela gostou). E o dia terminou como todos os outros (ou quase), ela tentando lutar contra o desânimo e o cansaço. E claro, contra os próprios pensamentos.
Porém, algo diferente aconteceu para dar sentido a esse quase.

Ela estava indo em direção a parada, o ônibus já estava chegando e ela teve de correr. 
Ao entrar no ônibus, ofegante e com dor em um de seus órgãos vitais, sentou no primeiro lugar que apareceu em sua frente. A dor demoraria um pouco a passar (merda), mas passaria. Sempre passava.
Eis que, na roleta, sua amiga aparece e a observa com raiva. Era ela mesmo? Será que ela não estava louca? A amiga não desviou o olhar e sentou no fundo do ônibus. 
Não podia ser ela, não mesmo. Ela não tinha que aparecer. Ela olhou para trás para se certificar de que a tinha visto mesmo. Era ela. O espantou deu lugar à raiva recíproca, que passou ao abrir seu livro e dar continuidade à leitura, que se assemelhava à história de sua amiga.
Por que a raiva? Era egoísmo? Sim. Não. Talvez. Não importava, não mais. Acabou, agora ela tinha certeza. Nunca mais se falariam de novo, sua "amiga" não se sentia nem um pouco abalada com a perda, não como na outra vez. Algumas pessoas só valorizam quando perdem. Pessoas assim não merecem ser valorizadas. 
Agora ela sabia que nunca mais se falariam de novo, que a amizade não retornaria mais e a história não voltaria a ser contada. Ela não precisava mais se preocupar com a culpa que não tinha, até porque essa culpa não existiria se ela tivesse rompido um tempo antes de tudo acontecer. Mas ela não rompeu no tempo errado, rompeu no tempo certo: quanto tinha esquecido certas pessoas, conhecido outras que a deram valor mas que não se tornaram tão essenciais pois ela havia aprendido que ser sozinha é bom às vezes. É bom ser auto-suficiente, poucas pessoas reconhecem isso.

Mesmo assim, ela precisava manter esses argumentos em sua mente. Precisava evitar tudo o que pudesse lembrá-la do que aconteceu. Ela não poderia evitar ter sentido, ou poderia? Não. Mas sua amiga poderia muito bem evitar o erro que cometeu. Agora não importava mais. 
Bem que aquele livro poderia terminar logo... ela sentia vontade de jogá-lo longe junto com a história que havia acabado de ver finalizada. Mas ela precisava ser forte, ou alguém perceberia. Isso não era da conta de ninguém. Ela terminaria a leitura e diria que gostou, como sempre faz.

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