Abstinência de Escrever

12 novembro 2014


Oi, meu nome é Taylor. Tenho vinte e dois anos, moro em Boston, e sou colunista semanal do jornal local.
Acredito que meu amor pela escrita seja proveniente do amor pela leitura: meu pai lia para mim quando eu ainda era um bebê, e eu desejei aprender a fazê-lo sozinha antes mesmo de entrar para a escola. As aulas de redação me fizeram amar ainda mais isso, os trabalhos escolares eram todos autorais. Já tive vários diários, e também, vários blogs. Com eles eu divulgava minha paixão ao mundo, ou pelo menos, ao país.
Claro, o amor pela literatura sempre foi cotidiano, também. E já li muito sobre manias de leitores: colecionar livros, cheirar livros novos, pensar na próxima leitura antes mesmo de terminar a atual, se empolgar com a leitura (acontece com quem sente o livro, ao invés de apenas ler), detestar ou adorar spoilers (cada um reage à seu modo, quando recebe um), demorar a escolher a posição... entre outros.
Todo leitor tem suas manias, e com os escritores não é diferente. 
Porém, não conheço muitos escritores e nunca ouvi ninguém citar que manias seriam essas. Só sei que possuo várias.
Sou movida à escrita, se eu ficar muito tempo sem escrever, eu enlouqueço. Costumo dizer que entro em abstinência. 
É horrível estar ocupado com algo importante, como seu trabalho (caso você ainda não tenha conseguido se tornar um escritor), ter uma ideia surgindo em sua mente, e não poder colocá-la no papel ou na tela de um computador. Quem escreve, sabe: você vai ficar tenso, pois sabe que há a possibilidade de esquecer. Mas você não pode deixar passar. 
Muitos esquecem, eu não. Sempre que essas ideias aparecem quando não devem, fico pensando que esquecerei, mas nunca esqueço: elas ficam rondando a minha mente, e eu fico tão ansiosa, que quando percebo que estou perto de casa, começo a correr pra escrever logo o que ficou na minha cabeça o dia todo. Já aconteceu comigo em outros empregos, não sei como eu não me atrapalhava por causa disso.

Pior do que ter milhares de ideias que você não pode compartilhar de imediato, é ter tempo de sobra para fazê-lo e não conseguir pensar em nada. Bloqueio criativo, instrumento de tortura utilizado pelo demônio. Se eu for pro inferno, com certeza irei parar em uma ala particular, onde só sentirei isso.
Não é muito difícil descrever a sensação: você sente que precisa escrever alguma coisa, qualquer coisa. Não importa o que seja, se for um texto filosófico, uma lição, algo deprimente, algo feliz, ou uma crônica. Não importa se for uma resenha de livro, a sua opinião sobre um filme ou uma crítica à sociedade. Você precisa escrever. 
Mas quem disse que sua mente colabora com isso? Ela quer brincar de jogos mortais com você. Você vai separar caderno, caneta, vai pensar durante duas horas (que na verdade são apenas cinco minutos, mas para você parece mais um século), e adivinha o que vai sair? Nada. Até que algo surge, mas você não sabe como estruturar isso. Você escreve e risca. Escreve e risca, escreve e risca, até que o papel fique todo rasurado e você decida arrancá-lo e jogá-lo no lixo.
Essa mesma cena se repete cinco, dez, quinze vezes.
Até que você desiste e se frustra com isso. Se passar por isso em um dia já é ruim, tente passar por uma semana, um mês, ou até um ano: você se sentirá abismada, é o fim do mundo pra você. As ideias acabaram, você já usou tudo o que era possível. Não sobrou mais nada.
Você chegará a conclusão de que era uma péssima pessoa na outra vida. Quem sabe um plagiador que pega textos ótimos de iniciantes sem muito reconhecimento, e mostra para todos os seus milhares de seguidores, recebendo mil comentários que não são para ele?

Essas são duas manias de escritores. Quer uma mania realmente idiota?
Escrever no corpo quando não tem papel. Frases no pulso, frases no braço... você não é uma pessoa, você é um cartaz ambulante.
Escrever em qualquer lugar que a caneta pegue. Mesas, cadeiras, paredes, a pele do seu próprio corpo... é um péssimo hábito, mas se você usar um lápis e em seguida uma borracha (caso você não possa "pichar" o local), tudo fica bem.
Sem falar nos seus pensamentos: eles não são normais, são citações do livro que você ainda vai escrever um dia. Você está no mini mercado de seu bairro, derruba o cereal e alguém bonito o junta para você, olhando nos seus olhos. Mal sabe ele, mas essa cena está sendo narrada na sua mente e talvez acabe virando uma crônica mais tarde, mesmo se você não tiver criado a menor expectativa sobre isso. Isso dá uma crônica. Tudo ao seu redor se torna texto. Você respira palavras. 
Você está no show do seu cantor favorito (quem dera), apenas curtindo a música. Eis que surge uma ideia para uma crítica musical: "alguém aí tem papel e caneta?". Tá aí uma pergunta que faz parte do seu cotidiano.
Anotar títulos nas notas de seu celular é tão repetitivo quanto respirar. Pelo menos do tópico você precisa lembrar.
Se você já tem esses hábitos sem necessariamente receber por isso, espere até um dia fazer deles o seu sustento: você vai enlouquecer, pode ter certeza. Na lista do super mercado das outras pessoas, só tem comida, produtos de limpeza, etc. Na sua, sempre tem algo a mais: caneta, caderno, borracha, apontador, e lápis de escrever. E sempre tem alguém para achar que você tem filhos em idade escolar, quando na verdade, você é apenas uma humilde pessoa que tem a escrita como seu sustento. Quando não pensam que são filhos, eles observam a sua cara de jovem e chegam à conclusão de que é para a escola. Não, não é, e Deus me livre de voltar para lá. Lugares barulhentos e muvuca definitivamente não fazem parte da minha lista de pequenos prazeres da vida. "Ah, mas a escola é um local de estudo", quem dera todos pensassem como você, meu amigo.
Depender de sua criatividade para manter-se viva pode ser tenso, mas é uma tensão boa. Você está vivendo para fazer o que ama, e isso é uma razão para acordar sorrindo todos os dias.
Ok, talvez você não acorde sorrindo, mas alguma hora você vai sorrir.



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