Caroline

27 novembro 2014


Morte.
Uma palavra que nunca saía da sua cabeça. 
Como as pessoas reagiriam à minha morte?
Um pensamento que rondava sua mente, todos os dias, o tempo inteiro. Era inevitável: ela estava deprimida, não tinha certeza se realmente faria falta pra alguém e estava cansada de se sentir assim. Mas o que queria era se sentir importante e valorizada, não morrer.
Ninguém sabia de seus pensamentos exceto um pequeno caderno preto, parecido com um livro, no qual ela escrevia o que sentia. Ela não revelava nada aos outros, mesmo, achava melhor desabafar a si mesma... pelo menos era esta a sua justificativa. 
Ela carregava esse caderno para todos os lugares que frequentava, as pessoas pensavam que eram poemas bobos de adolescente. Ninguém se interessava em ler (sorte dela). 

As pessoas falavam dela constantemente por causa da mania que ela tinha de escrever encostada em uma lápide, no cemitério, nos fins de tarde. Era a lápide de sua melhor amiga, que cometera suicídio há dois invernos atrás. A única pessoa que a entendia já não existia mais, fora ela quem lhe dera o caderno.
Ela expressava seu luto e gratidão escrevendo lá, pois era como se estivesse falando com sua amiga de novo.
Caroline era uma aluna exemplar, e uma funcionária influente. Vendia sua alma para seu trabalho, e seu cérebro para seus estudos. Adorava aprender qualquer coisa, e nunca teve dificuldades para nada. Escrever dissertações era como receber um cafuné. Todos consideravam-a inteligente, nerd, sábia, responsável, racional... diziam que ela sabia de tudo. E era verdade, o hábito de ler, aprender e pesquisar era tão grande, que ela poderia responder qualquer pergunta.

Ela só não sabia de uma coisa: estava sendo observada. 
Ter um ex namorado ciumento, agressivo, ninfomaníaco e psicótico não era para qualquer um, Muito menos para ela, que perdera a virgindade sendo estuprada pelo mesmo. Uma realidade difícil de se aceitar. 
Ela achava que ligar para a polícia fora a solução de seus problemas, mas o otimismo a impediu de contar com a possibilidade de uma fuga.

Ele conhecia seu passado por completo. Sabia sua rotina, sabia seu endereço, e sabia que agora, não tinha amigos. Nunca fora uma pessoa de muitas amizades, e as poucas que tinha, ele fez questão de destruir. 
No começo era um príncipe: era romântico, carinhoso, fazia de tudo por ela e ela acreditava que finalmente, era especial para alguém. 
Coitada.
As coisas ficaram complicadas quando o ciúme dele quase a tirou de sua escola e trabalho. Ela não queria abandonar nada disso, foi por isso que apanhou tantas vezes. De vez em quando ficava difícil caminhar em linha reta, por conta da dor que sentia. 
Sem avisar, ela ligou pra polícia, acabando com a alegria dele.
Por pouco tempo. E ele sabia quando e onde ela ficava sozinha.

No cemitério. E por coincidência, havia um casarão não habitado por perto. Uma excelente coincidência... para ele.

Era segunda feira e, depois do trabalho, resolveu chegar em casa, trocar de roupa e seguir rumo ao cemitério, como sempre. Dessa vez de vestido preto, sapatilha e cabelos soltos, ela pegou seu caderno com caneta acoplada, e foi, sem saber do que estava para acontecer. 
Quando escrevia, ela desligava-se do mundo. Só o que existia para ela, eram o caderno e a caneta em suas mãos, somados aos seus pensamentos incontroláveis. Nesse dia não foi diferente.
Do nada, sentiu alguém a agarrando e colocando um pano em sua boca. Ele apontou uma arma para seu rosto, dizendo as palavras clichês: "se você não se mexer, ninguém se machuca".

No casarão, a prendeu em um quarto de casal. Lá tinha uma TV, onde poderiam assistir cenas explícitas dos sonhos de qualquer homem. Em repreensão por seu mal comportamento, ele a agrediu para depois saciar os próprios desejos.
Ela estava mais bonita do que nunca, pensava ele. Caroline sempre teve bom gosto para roupas, e era absurdamente sensual, não importa o que vestisse. Tudo nela lhe despertava o libido. Ele não sabia como poderia ser o único a sentir isso em relação a ela, mas achava melhor assim. Sobrava mais para ele. 

Sabe-se lá como, passou semanas em cativeiro. E as semanas se estenderam a meses, inspirando uma série no jornal local, para chamar atenção da população para o desaparecimento (e possível morte), de uma garota solitária. O homem sabia como esconder sua vítima, a casa era a prova de som, por isso, ninguém ouvia os gritos. E ele sabia disfarçar qualquer sinal que revelasse o fato de que aquele lugar não estava vazio.
Como seus familiares não conheciam essa mania, pois estavam sempre trabalhando e quando chegavam, ela já estava em casa, a polícia também não tomou conhecimento. E como o cemitério não era tão próximo de sua casa, não acreditavam que pudesse fazer parte da rotina de Caroline.

Seu carcereiro permitia que ela visse o noticiário. Deixava que ela visse sua família em completo desespero, fazendo com que ela chorasse todos os dias, não só de medo, não só de dor, mas também de arrependimento: como pudera achar que eles não sentiriam sua falta?
Para eles, não havia esperança. Sua filha havia morrido.

Ele sempre variava a rotina cuidadosamente, não apenas para jamais ser visto, mas para que sua "boneca" não conseguisse fugir. As janelas estavam sempre trancadas, assim como a porta do quarto. A chave ficava com ele, onde quer que ele fosse.
Mas mesmo assim, Caroline decidiu agir. aproveitando todo e qualquer momento de solidão. Memorizou a ordem metódica das coisas, e procurou por qualquer objeto pontiagudo que pudesse abrir maçanetas. 
Encontrou, e encaixou perfeitamente. Ela fechou novamente a janela, guardou o objeto consigo, colocou as coisas de volta no lugar, e voltou para seu posto. 
Ao chegar, ele não desconfiou de nada e a jovem aguentou as torturas fortemente até ficar sozinha de novo.

No dia seguinte, um imprevisto: algo aconteceu e ele, impulsivamente, disse que iria demorar. Terrível erro. 
A garota esperou alguns minutos até ter certeza do sumiço de seu sequestrador e fugiu furtivamente, pulando a janela e ferindo-se ainda mais. 
Apesar de dolorida, correu. Correu porque não sabia quando ele poderia voltar. Ela sabia que o mato ali perto servia como atalho para sua casa, mas nunca o pegava para ter a sensação de que passou mais tempo com sua amiga. 
Sem pensar duas vezes, pegou-o. 

Ao chegar em casa, estava ofegando, cheia de cicatrizes, feridas, e sangue coagulado. Ele não fazia a menor questão de controlar a raiva e o desejo quando estes o possuíam. 
Sua família entrou em um pranto contagiante, eles ligaram para a polícia, relatando seu súbito aparecimento.
Ela contou onde estava, revelando sua rotina.

Dessa vez ele não foi preso, morrera em um acidente de carro. 
Agora que assistira ao luto de camarote, a morte era um pensamento a menos para lhe torturar. Ele foi substituído pela culpa. 
Algumas consultas com um psicólogo davam fé para sua família, mas ela preferia não criar esperanças demais.


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