Ensino Médio Politécnico

20 novembro 2014


Há mais ou menos cinco anos eu disse que pretendia fazer um post esculachando falando sobre o Ensino Médio Politécnico, né? 

(Sim, eu tô enchendo o saco pra falar de política de novo, os incomodados que se retirem).

Primeiramente, vou explicar pra vocês o que é o Ensino Médio Politécnico e como ele "evoluiu" de 2012 até esse ano. 
Ele é um programa inventado pelos senadores gaúchos que entrou em "fase de teste" em 2012, nas escolas estaduais do Rio Grande do Sul (óbvio né, o que a palavra gaúcho te sugere?). A ideia era uma suposta melhoria no ensino, mas vou avisando que não melhorou porra nenhuma. Já começou errado porque isso nem foi explicado direito aos diretores e educadores, foi apenas jogado encima deles no estilo "se vira aí que eu tô cagando". Naquele ano a maioria nem sabia direito o que era isso, porque foi muito mal explicado (se é que foi explicado).
Pois bem. Em 2012, apenas os primeiros anos eram incluídos no projeto, servindo de "ratinhos de laboratório" pra ver se dava certo (e não deu, mas até parece que eles se importam com isso). 
Funcionava assim: existia uma turma separada pra o projeto, ou seja, se você tivesse entrado na turma 2132, faria parte de mais uma turma para o projeto, e as aulas com essa turma eram das 18h às 18h45 (que eu me lembre). Nos primeiros meses era explicado como ia ser o restante do ano e sorteados os assuntos: você recebia o papel e marcava os assuntos que te interessavam mais, em ordem numérica decrescente. Pra mim isso não deu muito certo, rsrsrs, não lembro o que eu queria, mas acabei passando um ano inteiro pesquisando sobre Depressão na Adolescência. A matéria do projeto chamava-se Seminário Integrado (ainda é), e tinha aulas durante o período normal também. A nota da pesquisa contava também como 25 pontos a mais em cada matéria, Parece ótimo pra quem tem dificuldade, né? Mas não se ilude não, porque se algo na pesquisa der errado, é um problema a mais em cada matéria. E o Seminário Integrado é uma matéria a mais pra você ir bem ou mal, um critério a mais pra te aprovar ou reprovar. Enquanto você poderia estar estudando matemática, química, física, etc, matérias que quase todo aluno possui dificuldade e precisa de reforço para o Enem e o vestibular, está perdendo tempo com aquela pesquisa. Talvez até pudesse ajudar em algo, considerando que o formato do trabalho tem que ser em "artigo científico" (ou algo assim), de acordo com as normas da ABNT (pesquisa no google), muitos podem aproveitar e aprender para os futuros trabalhos acadêmicos. Fora que alguns assuntos são realmente interessantes, e é muito bom ganhar nota para fazer algo que você gosta. Agora, pensa em trabalhar e estudar... é um fardo a mais pra carregar, e muitas coisas mais para te ocupar nas madrugadas.
A pessoa ia pesquisando durante o ano inteiro, vendo filmes, vídeos e documentários sobre o assunto, e no final do ano entregava um trabalho de mais ou menos 20 páginas, com apresentação de slides e tudo. Obs: nem todos deram 20 páginas, alguns deram 16 =P

E acha que as aprovações e reprovações daquele ano foram justas? Que nada! Como eu disse, os professores estavam muito mal informados naquela época, muitos alunos que mereciam ter passado de ano reprovaram por causa do "sistema", e muitos alunos que não tinham condições de passar, foram aprovados por causa de uma área do conhecimento. Eu, por exemplo, tinha me afundado por motivos pessoais, e só passei porque fui bem na área das linguagens (que engloba português, inglês, educação física, artes até o segundo ano, espanhol a partir do segundo ano, e literatura). Eu estava mal nas ciências da natureza por dificuldades (química, física e biologia), estava mal em matemática (desnecessário explicar o motivo), e estava mal em Humanas, por motivos pessoais, porque dificuldade eu nunca tive (Geografia, História, Filosofia, Sociologia e Religião, imagina?).

Em 2013 os segundos anos foram incluídos no projeto (até porque a primeira experiência deu super certo, né? ¬¬). Dessa vez não havia turma separada, nem tempo extra antes da aula. As pesquisas eram feitas em grupos separados na turma mesmo, e eram de escolha livre, sem lista separada pra sortear nem nada. A nota foi modificada, agora já não era mais 10, 20, 30... era conceito. CSA ( a nota máxima), CPA (que dizem ser média, mas é nota baixa pra quem relaxa e média pra quem se esforça, pelo que me disseram), e CRA (nota baixa, independente de ter se esforçado ou não). A "tradução" das siglas eu não lembro, mas deu pra entender o que é, né? Sem falar que as aulas de seminário integrado durante a semana tiveram alguns períodos a mais, fazendo com que perdêssemos ainda mais tempo. E foda-se sua necessidade de se aprofundar nas matérias que tem dificuldade, ninguém liga se você trabalha e estuda, O esquema era o mesmo: pesquisa relativamente extensa e apresentação de slides.
Dessa vez as aprovações e reprovações não estavam tão erradas (acho). Apesar de eu não ter achado que merecia passar (se bem que eu nunca acho que tentei o suficiente, mas enfim).


Agora, em 2014, os terceiros anos foram incluídos e o sistema é mais ou menos como o de 2013. Porém, as pesquisas são trimestrais ao invés de anuais. No primeiro trimestre trabalhamos encima de um tema gerador (a copa do mundo), para cada grupo pesquisar sobre um tópico (segurança, manifestações, mídia, etc). No segundo trimestre o tema era livre, assim como em 2013, eu pesquisei sobre a educação se não me engano (nem lembro =P mas fui bem até, a professora disse que eu escrevo bem e a minha apresentação foi boa também), Agora, já no terceiro trimestre, estou fazendo sobre TOC (transtorno obsessivo compulsivo), e até que curti o assunto. 

Ah, sobre as áreas do conhecimento que eu citei no começo: a nota não é individual (português, inglês, literatura, etc), e sim, por área (ciências da natureza, ciências humanas, matemática, Seminário Integrado, e Linguagens e suas Tecnologias). Se você for mal em uma matéria dessa área não tem problema, pois caso as outras estejam bem, você passa. Vamos supor que nas ciências da natureza você tenha mais facilidade em biologia e física, mas seja um desastre em química. Concentre-se nas outras que você passa.

O que me incomoda nesse projeto não é a pesquisa em si, que apesar de ocupar mais tempo do que deveria, é interessante de se fazer e serve como um preparatório para que os alunos do "Ctrl C e Ctrl V" aprendam a escrever algo de sua autoria para não se dar mal na faculdade. Sem falar que a estrutura textual exigida supostamente é bem parecida com as pesquisas acadêmicas que teremos de fazer daqui a pouco tempo. Ah, bônus: fico feliz quando minha professora diz que eu escrevo bem, hehehe. Não é por vaidade, não é por egocentrismo, e não é por me achar "a" escritora, ou "a" fodona. É que poucos se importam com isso e quando alguém repara, eu boto essa pessoa num pedestal, pronto falei.
Falta muita organização nesse projeto, são muitas aulas de Seminário Integrado por semana e isso não é necessário, porque não é tão difícil assim. Sem falar que muitos alunos acabam se acostumando demais a serem relaxados e ganharem as coisas do jeito mais fácil, A vida não é assim, quem quer algo, tem que ralar. Ou ganha lutando até a morte ou não ganha. 
No caso, é fácil assim pra quem não trabalha, pra quem ganha as coisinhas do pai e da mãe. Eu tenho colegas assim: o celular, a roupa, os materiais, foi tudo os pais que deram. 

Na nossa escola e em mais duas da nossa cidade tem um tal de Projeto Piloto também, as aulas são de 3h, sem intervalo e no noturno, começam às 19:30. Das 18h30 até o começo da aula é o tempo que os alunos têm pra comer algo no refeitório e tirar dúvidas com os professores.  É meia hora pra cada período, mas os horários mudaram e é difícil uma matéria ser só um período, geralmente é dois.
Só que: apesar de eu ter colegas que ganham tudo dos pais, a maioria trabalha e não tem tempo de chegar uma hora mais cedo. Tenho uma colega que desistiu porque se chegava 5 minutos mais tarde (do horário das 19:30, eu digo), a diretora já não deixava ela entrar. E olha que ela tentava, quando tinha trabalho em grupo, era sempre eu e ela que corria atrás. Ou seja: como no politécnico a gente passa mais tempo falando sobre as pesquisas, e o tempo de aulas é curto, cadê o tempo pra estudar matemática, química e física? Quase não tem, e azar de quem não pode chegar mais cedo.

Sabe por que existem tantos desempregados? Porque a maioria não possui formação para grandes cargos, porque tiveram problemas financeiros. Agora é tudo dado em bolsa, descontinho, parceladinho, se bobear aceitam até fiado ou escambo. Ninguém é forçado a correr atrás de nada porque o governo dá de presente pra poder dizer que fez algo de útil, Ele acomoda o povo, e o povo acha que isso é benefício, mas não é.
O certo seria eles tomarem vergonha na cara e aumentar o salário mínimo, diminuir a inflação, Melhorar as condições dos hospitais e escolas públicas (traduzindo: criar condições, porque até agora não tem). Se for pra ter igualdade, que seja do jeito certo: sem cartão de crédito, sem parcelas que demoram dois anos a serem pagas, sem atolações de dívidas porque a maioria deseja algo e mesmo vendo que é caro demais, passa até fome pra poder comprar. Se houvesse igualdade mesmo ninguém precisaria de bolsa de estudo ou cartão de crédito. 
Antes do Ensino Médio Politécnico já estava ruim, agora estava pior. Pelo menos os alunos eram um pouco desafiados a tirar notas boas em todas as matérias, agora tem quantas matérias? 5? 4? Depende de quantas você tem facilidade ou não, mas permitir que o aluno ignore a pior matéria, pra ser aprovado na que tem mais facilidade é um absurdo! 
Claro, ainda assim o aluno pode ser reprovado, se ele possui múltiplas dificuldades e não conseguir reparar qual é pior, pode acabar se atrapalhando nas divisões e sedo reprovado em todas elas. 

E eu não contei o pior: quem tiver ido mal nas matérias, passa pela semana do PPDA (recuperação, digamos), que existe desde 2013. É um dia de prova pra cada área do conhecimento. A partir desse ano, se não passar no PPDA, o aluno recebe uma lista das matérias que precisa estudar. Em julho ou agosto de 2015 ele faz uma prova baseada nessas matérias, e se não passar, aí sim é reprovado e começa as aulas em fevereiro de 2016. Já pensou? Imagina se a pessoa tem dificuldade, ralou o ano todo e reprovou? Se não conseguiu estudar com o professor por perto, duvido muito que vá conseguir estudar sozinho! Esse aluno vai perder dois anos da sua vida, vai sujar o próprio currículo por causa de uma bagunça que o governo fez no sistema educacional? Isso por acaso tá certo? Claro que não!

Eu torci muito para que o Aécio fosse eleito, mesmo não confiando tanto nele. Mesmo com medo de  que o PSDB fosse ser pior do que o PT, eu torcia para que ele fosse eleito e extinguisse o Ensino Médio Politécnico (entre outras coisas que me dão vergonha de ter nascido nesse país). Queria dizer tchau para falsos benefícios e regalias vergonhosas, queria abandonar o risco que muitos alunos passarão a correr de ter a própria imagem poluída pelas dificuldades de ensino (tudo bem que tem alunos vagabundos que não ligam pra nada e mereciam mesmo tomar no cu, mas pelo menos uma vez na vida, vamos pensar em quem realmente se importa com algo além da balada do fim de semana? Por favor?).


Nenhum comentário:

Postar um comentário

E então, o que achou do post? Gostou? Odiou? Achou uma bosta e tá a fim de me mandar pra puta que pariu, e dizer que eu sou uma escrota? Fala aí!