Quem são seus amigos?

08 novembro 2014


Ser psicóloga é uma decisão que muitas pessoas tardam a tomar: em geral, é na adolescência. Adolescentes sofrem, choram, se decepcionam, seja escondido ou seja diante do mundo. Às vezes isso pode atrapalhar a vida deles, em vários sentidos: escolar, familiar, profissional... que foi? Muitos jovens trabalham e estudam.
Todos passam por suas histórias, algumas são mais difíceis do que outras. Então eles decidem buscar por ajuda. 
Ao superar, veem o quanto o psicólogo foi importante, e o quanto precisavam ser felizes, e desejam ajudar mais pessoas a descobrir o caminho da superação.
Outros, desejam apenas por hábito de aconselhamento e apoio: ajudam os outros o tempo inteiro e resolvem os problemas do mundo (mesmo sem saber o que fazer com os próprios). Acabam optando por fazer disso o seu sustento.
São todas histórias clichês, mas clichês não combinam comigo. Tomei essa decisão em minha infância.
Eu tinha uma colega que era como os futuros psicólogos: aconselhadora profissional. Ela era o tipo e boa samaritana que fazia o bem sem olhar a quem, e nunca se arrependia disso: conseguia orgulhar-se de seus atos sem jamais perder a humildade.
Todos procuravam-na para pedir conselho e apoio, mas nem todos a respeitavam: como já era de se esperar, algumas pessoas abusavam dela. Fazer o que? As pessoas são assim. 
Ela era motivo de piada por causa de sua aparência. Era o que diziam: feia, gorda, desastre natural... ela não era nada disso. Possuía um rosto lindo e não era tão gorda assim, era apenas um pouco cheinha. E se fosse, grande coisa.

Quer um exemplo de como ela agia e de como as pessoas a tratavam? Vou contar uma coisa que aconteceu há muito tempo, na sexta série. Os alunos estavam na idade em que todos acham que "viraram" adolescentes, e muitos se achavam o máximo por motivos não determinados. E usavam isso como desculpa para humilhar os outros, sentindo-se superiores. Nicole não ligava pra isso. Ela passava por suas humilhações, se irritava, mas evitava se deixar abater.
Um dia, um daqueles grupinhos que zoavam a todos estava rindo na sala: colaram uma folha nas costas do amigo. Estava escrito Gay. Quando as pessoas vão parar de usar isso como um termo ofensivo? Bom, Nicole normalmente era quieta e observadora, como eu. Ela viu a cena toda. Quando seu colega, que zoava muito ela de vez em quando, passou por ela, ela tirou o cartaz e mostrou-o a ele. 
Eu não fui a única a reconhecer isso, o professor também viu. E fez questão de improvisar um discurso sobre isso, diante de todos.
Eu não recordo o discurso por completo, lembro apenas que ele relatou a cena para a turma inteira, e disse algo como: "É incrível como algumas pessoas podem não ter amigos. Ele enlouquece essa garota às vezes, e parece ter vários ao seu lado. Mas não tem nada. Mesmo sendo zoada, ela foi superior e ajudou ele. ISSO é ser amigo. Algumas pessoas ainda não tomaram posse desse conhecimento, mas um amigo te ajuda, independente do seu merecimento. Ele jamais fará brincadeiras desse tipo, pois sabe que pode ferir. "

Nunca fui capaz de esquecer a atitude dela. Na época, eu me sentia invisível e sem importância. Uma inútil para o mundo e para as pessoas que eu amava. 
Foi aí que eu decidi como ter importância. 
Além de inúmeros pequenos atos diários, uma palavra traçou o rumo que minha vida tomaria após alguns anos: psicologia.
Sim, eu frequentava uma na época. Sim, isso me ajudou. Mas quando superei, já havia decidido há muito tempo quantas vidas eu gostaria de mudar por mês. Por semana. Por dia.
Eu queria ser a amiga delas. Aquela que as ajuda, independente do seu merecimento.
Sou a Dra Clara Evans, hoje, possuo 37 anos e, apesar de meu círculo de amizades ter permanecido pequeno (duas amigas íntimas que possuo desde a infância, mais a irmã do meu marido), sou amiga de várias pessoas.



Nenhum comentário:

Postar um comentário

E então, o que achou do post? Gostou? Odiou? Achou uma bosta e tá a fim de me mandar pra puta que pariu, e dizer que eu sou uma escrota? Fala aí!