Bloqueada

11 dezembro 2014



Era terça feira, ela chegou em casa cansada. Trabalhava como colunista em um jornal de alto renome nacional, onde possuía total liberdade para criar o que desejasse. Mas há semanas não conseguia pensar em nada, absolutamente nada. 
Ela tentara de tudo: tomar água com mais frequência, melhorar seus hábitos alimentares, otimizar seu tempo de sono... nada funcionava. Ela possuía um arquivo de rascunhos reserva que a sustentavam por um bom tempo, suas colunas eram mensais. 
Algumas pessoas diziam para ela não se preocupar, ainda tinha manuscritos guardados, não tinha? Suas colunas eram mensais, não eram? Quanto mais ansiosa se permitisse ficar, maior seria o bloqueio criativo. Essas pessoas estavam certas, e ela sabia: o nervosismo sempre piora as coisas.
Porém, não existia nenhum interruptor que pudesse ligar e desligar as emoções que ela sentia. As coisas não funcionavam assim, não era apenas uma questão de racionalidade.

Quanto mais o tempo passava, mais impossível parecia ser a possibilidade de se ter uma luz. A impressão que ela tinha é que a cada dia se sentia mais exausta, suas pernas não estavam funcionando direito: seu andar estava endurecido, o que fazia-a pensar se alguém notava isso. A dor era cada vez mais insuportável, não apenas nas pernas, mas também nas costas, e na cabeça.
Mas o que seria isso?

Passado algum tempo, desistiu de falar sobre seu problema: as pessoas simplesmente não o entendiam. Uns diziam que era besteira, que com o tempo passava (quanto tempo? ela não podia simplesmente sentar e esperar pela resposta, era de sua renda que estavam falando, não de uma crise de adolescente!). Outros diziam que era só ficar calma, ela ainda tinha seus arquivos (e quanto tempo eles iriam durar, afinal?). Outros a mandavam procurar um psicólogo, dizendo que podia ser depressão (depressão por quê? Ela não tinha passado por nenhuma perda ou decepção recente, não tinha marido mas não se importava com isso, tinha poucos amigos, mas também não ligava pra isso pois nunca gostou de sair muito. Como poderia ser depressão se a auto-estima dela sequer estava baixa?).

As semanas se transformaram em meses, e a sua rotina se repetia diariamente: ela chegava em casa, tomava seu banho, arrumava a casa, comia, fazia o que tinha que fazer e ia direto para o escritório. Tinha decidido com firmeza que não deveria tentar escrever de estômago vazio desde que desmaiara uma vez, após passar três dias sem comer em prol de seu esforço. 
Hoje, por exemplo, ela se sentou na mesa, com caderno, lápis, apontador e lápis sempre à vista. A cena recordava uma estudante aplicada do Ensino Médio. Ela pensou e refletiu por horas que pareciam minutos, ou minutos que pareciam horas. Observar a folha em branco parecia esbranquiçar ainda mais sua mente. Olhar pela janela, para a paisagem e sentir a brisa fresca em sua face lhe oferecia a impressão de que o vento levara embora suas ideias. 
Com a tensão fervilhando seu cérebro, ela levou as mãos à cabeça, desejando desaparecer e perguntando-se o que havia acontecido com ela. Será que estava sobrecarregada? Pensava demais no trabalho? Precisava de folga, de férias?
Não, ela não estava sobrecarregada, como poderia se a maior obrigação que tinha  era fazer o que desde sempre amava? Claro que pensava no trabalho com frequência, ela o adorava! 

- Não - Pensou - Não preciso de folga, muito menos de férias.

Ela se dirigiu ao telefone, desistente. Ligaria para a psicóloga que sua colega tanto insistiu que marcasse, e agendaria uma consulta para o dia mais próximo. 
Ao desligar, escreveu sobre não ter o que escrever, e torceu para que algumas variações desta ideia pudessem ajudá-la de algum modo, até que se estabilizasse novamente.

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