Quem quer um amigo?

24 janeiro 2015



Parecia ser apenas um dia como outro qualquer, um dia chato, vazio e entediante. E quente, insuportavelmente quente. Ela havia acabado de sair do trabalho, e comprara um potão de iogurte de morango gelado para comer e se refrescar ao chegar em casa. 
Enquanto estava comendo e atualizando suas redes sociais, ouviu um miado. Mas ela não tinha gato, devia estar louca. Resolveu ignorar.
E então ouviu novamente. Ficou curiosa e foi procurar a fonte daquele som.

E lá estava ele. Ou seria ela? Uma gatinha, ainda filhote, encolhida debaixo da cadeira que ficava próxima à mesa do terraço.
 - O que foi, querida? Tá perdida, é? Vem cá, meu amor.
Ela era completamente apaixonada por qualquer filhotinho que fosse. Corrigindo: por qualquer animalzinho que fosse. 
Notificou ao seu avô sobre sua descoberta, ele disse que já era a quinta vez que ele tentava pôr o filhote para fora e ele voltava. 
Como conhecia todos os vizinhos, sabia que o dono não era daqui. Como um filhote tão pequeno poderia ter vindo tão longe? Aliás, pequena. Uma "filhota" tão pequena. Ela soube que era fêmea assim que olhou na parte de baixo. Pare de rir, este é um texto sério.


Não podia adotar, pois sua mãe tinha renite alérgica e surtaria assim que soubesse que havia um animal peludo dentro de sua casa. Azar o dela, o filhote ficaria ali assim que conseguisse um dono para ele. 
Ela pegou a filhotinha no colo e saiu, esquecendo-se do iogurte. A primeira parada foi uma agropecuária, mas a mesma recusou a oferta pois, segundo a nova lei, "agropecuárias estavam proibidas de oferecer animais para compra ou adoção", e recomendou outro lugar que ficava a quadras e quadras de distância. O garoto que estava na ferragem ouviu a história dela. Ele deu um sorriso comovido ao ouvir: "e bom... eu não queria que ela morresse."
Ela foi, apesar da distância,  com a gata em seu colo, um calor escaldante e suor em sua testa. Muito suor.
Enquanto caminhava, conversava com a gatinha, que tentava escalar seus ombros, tentando fugir. "Quem é você, sua maluca? O que quer comigo?", era isso o que a pequena Sharon parecia pensar. 
Sharon era o nome provisório da gata, inspirado no nome da ex-esposa do maluco Ozzy Osbourne, a garota não sabia como foi pensar nesse nome: foi uma ideia aleatória pois ela não gostava tanto assim do rockeiro, nem do Black Sabbath, apesar de ouvir repetidamente algumas músicas e conhecer alguns fatos sobre a banda, graças à biografia ilustrada que ganhara de um amigo. Mas ela não era tão fã assim deles, só pra avisar.

Ao chegar no outro estabelecimento, a filhotinha já estava calma. E adivinha? Eles também não podiam aceitar. Ela voltou e começou a oferecer em algumas casas (não sabia por quê não fez isso primeiro, provavelmente foi por causa do impulso de ajudar, ela era um pouco rápida demais às vezes). 
No caminho, um garoto disse que tinha visto a gatinha na rua: ela estava sendo perseguida por um bando de cachorros, e ele colocou a gatinha próximo à casa dela. Excelente ação.
Ninguém a queria. Pobre gatinha. Mas alguns não estavam em casa.
Quando sua mãe chegou, reagiu exatamente do modo como a menina previra: surtou.

- TIRA ESSA GATA DAQUI DE DENTRO DE CASA! AGORA! SENÃO EU MESMA VOU JOGAR ELA NA RUA!
- EU NÃO VOU DEIXAR A GATA MORRER SÓ PORQUE VOCÊ TEM PROBLEMAS MENTAIS!
- EU TENHO RINITE!
- A SUA RINITE NÃO VAI ATACAR SE VOCÊ FICAR LONGE DELA, E ISSO NÃO É DESCULPA PARA AGIR FEITO UMA PSICÓTICA!

Ela levou a gatinha para seu quarto para protegê-la, lavando um notebook consigo. Serviu água e separou uma trouxa de panos macios para que o animal deitasse, porém, o mesmo insistia na cama. E sua mãe não parava de reclamar (às vezes ela queria trocar de família, mas isso era um exagero idiota, então deixava quieto).

Um tempo mais tarde, a mãe conseguiu um dono para o filhote: a mãe de seu vizinho, que morava longe, sempre quis ter uma gata. Como ele estava trabalhando a garota não pôde falar com ele, mas agora ele já estava em casa, porém, já estava tarde: eram dez da noite e a menina teve de faltar suas aulas noturnas para cuidar da gata. Deu de ombros: ela nunca faltava mesmo, era considerada uma das mais responsáveis da escola. Ninguém iria incomodá-la por isso.


Ela torceu para que a gatinha não acabasse sendo abandonada só porque era preta (algumas pessoas são muito ignorantes e supersticiosas). Ela sentiu saudades da gata por algum tempo, mas deixou isso de lado e achou melhor apenas torcer para que ela fosse bem tratada em seu novo lar.
Muitas pessoas sairiam por aí divulgando sua boa ação, mas ela achou desnecessário: ela não ajudava para se exibir e mostrar o quão boa e maravilhosa ela era, ajudava por ajudar. Porque se importava e se colocava no lugar do outro, pouco importava se esse outro fosse uma pessoa ou um animal. Contanto que ele não a fizesse de boba, o que tem de errado em fazer o bem? 



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