Gostosa porra nenhuma!

28 março 2015


Já falei tantas vezes sobre feminismo aqui no blog que me surpreende muito nunca ter feito um post para reclamar de assédio. 
Mas quer saber? Já passou da hora de falar sobre isso.

Nunca entendi o que leva alguns homens a berrarem "ei, gostosa" na rua pra primeira mulher que passar. Não apenas "gostosa", mas tesão, gatinha e até linda podem se tornar adjetivos assustadores, com uma simples variação no tom de voz. 
Sabem quantos anos eu tinha quando ouvi esse tipo de coisa pela primeira vez? Menos de 12 anos. Com essa idade eu tava recém aprendendo nas aulas de ciência o que era sexo, e já aguentava olhares maliciosos de caminhoneiros, motoristas de carro, ciclistas e qualquer outro homem que me visse na rua. Detalhe que eu não me considerava bonita naquela idade, então eu não entendia mesmo o por quê de tudo aquilo. Eu pensava: "Como assim, eles nunca viram uma mulher na vida, não?". Nunca considerei "gostosa" um elogio, isso até me assustava às vezes. Pensa em uma criança de doze anos passando na rua sozinha, quando de repente um velho desdentado lança aquele olhar? É revoltante imaginar essa cena, mas acontece todos os dias. E coisas muito piores também.

Hoje em dia minha auto estima aumentou bastante (brigada, de nada), mas eu continuo mantendo a mesma linha de pensamento: Cês nunca viram uma mulher na vida? 
Não vou mentir dizendo que nós, mulheres, nunca reparamos em um abdômen ou em um par de músculos. Muitas de nós somos debochadas por natureza, temos nossa malícia, e acontece sim, de abrir uma revista adolescente, ver um anúncio de cueca e começar a zoar entre as amigas, falando coisas como "ô lá em casa", do mesmo jeito que dizem na nossa cara na rua.
Porém, nunca passou de zoação entre amigas, pelo menos não pra mim. Nenhuma mulher que eu conheço já berrou uma cantada pra um homem aleatório na rua, mesmo as mais safadas (eu acho, pelo menos).

Se tem um dia que eu nunca vou esquecer justamente por causa do assédio, foi uma vez quando eu vi que acabou o saldo do cartão do ônibus e tive que descer, indo pra casa a pé. Eu amo shorts, uso direto porque me sinto mais livre com eles, e se eu me apaixonar por algum modelo, uso sim, sem vergonha. Porém, eu estava de calça no dia, com all star e uma camiseta. Escolhi um caminho mais reto, sem muitas curvas e ruas pra atravessar, porque hoje em dia, mesmo quando um motorista dá sinal pra você passar, você ainda tem que se dar ao trabalho de verificar e ver se não tem nenhum apressado vindo por trás.
E adivinha? Não faltou caminhoneiro pra me chamar de "boneca", "gostosa", pra passar assobio, mandar cantada, lançar aquele olhar nojento que sempre me dá ódio... como se não bastasse isso, ainda caiu um toró no meio do caminho e eu estava sem guarda chuva. Fiquei encharcada, beirando o ridículo, mas isso não os impediu de me ver como um pedaço de carne (porque é assim que eu me sinto às vezes, quando ficam me olhando desse jeito).
Isso foi em janeiro desse ano, houveram muitas outras vezes nas quais ouvi esse tipo de coisa, mas essa é a vencedora, porque a cada dois passos eu eu dava, eram 20 cantadas que eu já havia recebido.


Não faço a menor questão de aceitar isso, eu mando tomar no cu sim, exibo meu dedo do meio, mando se foder... quem oferece respeito, recebe respeito. Mas quem não oferece que lide com a resposta.
E eu sou bem sutil na minha resposta, considerando que a minha vontade era castrar todos eles, sem dó nem piedade. Não é arrogância, não é "se achar" demais a ponto de querer esnobar os demais. Respeito é bom e todo mundo gosta.

O blogger que me perdoe pela linguagem violenta, já entrei em blogs com a mensagem de aviso e quando cliquei em continuar, não parecia ter nada (ainda mais comparado ao meu blog). Então se precisar sinalizar como impróprio, eu sinalizo.
Mas quem vai sinalizar o assédio como impróprio? E quando exatamente? Acham que é o comprimento do meu short que vai definir se eu vou ser respeitada ou não? 
Não deveria ser assim, o homem não leva cantada por tirar a camisa, agora, a mulher não pode nem usar um short ou um decote pra aliviar um calor que só falta agarrarem ela e levarem embora (não que isso não aconteça)?
Só imagina na hora do julgamento:

- Por que você a estuprou?

- O short dela tava me provocando, aí eu fui lá e meti o pau.

Lógico que a linguagem no tribunal não vai ser tão informal, mas se for pra traduzir toda a baboseira que eles falam pra tentar se justificar, o resultado é esse aí mesmo. Parece ridículo pra você também? Deve ser porque É ridículo.
Uma vez eu li um livro chamado Escândalo (tem até resenha aqui no blog). Ele contava uma história de sexting que acabou sendo espalhada para o país inteiro ver. O menino tinha 18 e a menina, 17, e eles eram namorados em segredo, pois eram de classes sociais diferentes e o pai dela não aceitaria. Mas um dia ele viu as mensagens, achou que era um caso de pedofilia e fez um barraco. 
Em uma das partes do livro, o pai da garota estava assistindo uma entrevista na TV, feita com uma psicóloga ou algo assim. A tal psicóloga dizia que o uso da internet pelos jovens devia ser moderado, porque na internet existem muitas coisas que podem levar eles para o mal caminho, ou sei lá o que. Faz tempo que eu li então nem lembro direito o que ela disse. Mas lembro até hoje do que o pai dela disse: "Culpar o celular pelas coisas que os jovens fazem na internet, é a mesma coisa que culpar um carro pelo motorista ter dirigido alcoolizado". 
A mesma coisa acontece na vida real. Foi o homem que estuprou a mulher, mas muitos insistem em colocar a culpa no short, como se ele a tivesse estuprado. O short não fez nada, ele é só uma peça de roupa. Não é culpa dele se certos homens não sabem se controlar. 
Aliás, acho que eles sabem, sim. Mas não querem nem tentar porque como ainda tem uma vasta gama de pessoas que aceitam essas desculpas esfarrapadas, eles se aproveitam disso e continuam fazendo o que bem entendem.

Seria bom se certas pessoas abandonassem a ignorância e entendessem que a mulher não é um objeto à disposição dos homens, e que seu short ou seu decote não é um rótulo dizendo "faça o que bem entender".








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