Por que não falar?

02 abril 2015


Sozinha novamente, ela estava em seu quarto. 
Deitada na cama, observando o teto. Com os fones de ouvido no máximo, tentando colocar os pensamentos no mute. Lembrou que não havia mais ninguém na casa, e sentindo-se livre, desabou em prantos.
A rotina dela era esconder o que sentia, e todos os dias guardar seus medos e dores para si como se fossem uma relíquia. Algo que apenas os bons mereciam conhecer, apenas os melhores conseguiriam entender. E ninguém além deles receberia o direito de saber.

-x-

Mas por quê, Melanie? Pra quê tanto mistério? É para evitar julgamentos? Para evitar que lhe chamem de fraca, que digam que é drama? Que tudo não passa de uma fase e que vai passar? Que você só quer chamar atenção?
Bem, talvez você precise chamar atenção, sim. Mas não para fazer um show, e sim, para evitar o sufocamento. Para enterrar a sua cabeça em um ombro e sentir-se aliviada com isso.
 Você vai se martirizar em prol do que os outros dirão sobre você?

Esqueça o que digam, esqueça o que pensam. Concentre-se no que é melhor para você, desabafar às vezes faz bem. E isso não é um ato de fraqueza, não é levantar a bandeira branca e se render. Não é deixar claro que você desabou pra sempre, que desistiu. 
É recarregar a bateria, é purificar um pouco a alma, removendo parte da intensidade do que te destrói. Para que isso não te destrua mais.
Desabafar não faz de você uma pessoa dependente e frágil, faz de você uma pessoa corajosa, que apesar de saber quais rótulos receberia, resolveu se revelar mesmo assim.

Agora você não sabe mais, não é? Não sabe mais dizer, não sabe explicar. As palavras simplesmente não saem, ficam entaladas em um local desconhecido. Você congela como uma garota tímida congelaria ao apresentar um trabalho diante de toda a classe. Você desaprendeu a desabafar, se é que um dia soube. Quando foi que você já disse tudo o que te incomodava em apenas uma conversa? Quando conseguiu mencionar tudo, sem ocultar propositalmente nem se esquecer de nada?

Confiar é difícil, mesmo, não é? De fato. É preciso tomar cuidado com o que se diz, pois algumas pessoas podem usar isso contra você. Sua história pode vetar algumas oportunidades.
E algumas coisas tendem a funcionar melhor se você planejá-las em silêncio, por baixo dos panos.
Mas não se habitue a segurar o copo o tempo inteiro. Esvazie-o de vez em quando, e solte-o. Deixe que quebre, que se espatife no chão. 

Você não é obrigada por lei a aguentar calada todas as punhaladas que a vida te dá. Se quiser dividir com um amigo, divida. Se quiser dividir com o mundo, divida. E não se permita afetar com as consequências, a fofoca, as risadas, o discurso de ódio talvez. Um dia você vai esfregar na cara deles o que uma "fracote" como você é capaz de fazer. Ignore quem discorda disso, não ouse persuadir-se por eles. Você não é frágil por dizer o que sente, é apenas uma guerreira que reage a seu modo.

-x- 

Com todos esses pensamentos e reflexões em sua mente, ela se senta na cama e leva as mãos ao rosto. 
Então ela enxuga suas lágrimas e segue até o banheiro, no intuito de lavar seu rosto assim como lavara sua alma. Ou pelo menos tentara.
Um dia ela tomaria coragem e falaria para o mundo quem ela era e o que sentia. Começaria aos poucos, talvez. E depois falaria o resto.
Mas não hoje, não agora. Ela não se sente preparada, ainda está bloqueada demais e ainda não conseguiu aprender a resolver. 
Deixa para outro dia, não está tão ruim do jeito que está.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

E então, o que achou do post? Gostou? Odiou? Achou uma bosta e tá a fim de me mandar pra puta que pariu, e dizer que eu sou uma escrota? Fala aí!