Transição

25 abril 2015


Vontade de ir embora. Quem nunca?
Desde pequena, Alessandra pensava e repensava sobre isso. Queria ir embora, queria se afastar. Queria botar fogo em todas as pessoas que a faziam mal, cansada de colecionar humilhações, ela sonhava em fazer sua saída dramática e dar um adeus nada delicado à tudo o que já tinha visto e ouvido por ali.
O tempo passou, a história dela mudou. Coisas boas foram acrescentadas, lugares que antes eram feios, se tornaram bonitos graças às recordações acrescentadas a eles. 
Mas a vontade não passava, pois Alessandra era um ser metamorfósico. Estava em constante mutação, e às vezes, queria que a paisagem onde vive mudasse junto a ela. 
Já sonhou em ter nascido americana, parisiense, inglesa e até mesmo italiana. Já pagou pau para inúmeras culturas diferentes da que estava acostumada. Já quis até mesmo ser indiana, mas mudou de ideia ao descobrir que não poderia mais comer hambúrguer. Ela detestava ter conhecimento sobre o abate, queria largar o vício, mas por que tinham que ter dado um sabor tão bom em tamanha atrocidade?

O tempo passou. Ela leu outros livros, alguns textos de blog e ouviu algumas músicas. Já não tinha preferência de onde desejaria morar, não sabia para onde queria ir. Só sabia que precisava ir embora, viajar pelo mundo talvez resolvesse esse dilema. Quem precisa ter um ponto fixo, não é mesmo?

Não sabia para onde queria ir, não sabia se entrava ou não em um relacionamento no meio do caminho. Só sabia que não aguentava mais viver a mesma rotina massante todos os dias. Ver as mesmas pessoas, os mesmos cenários, as mesmas cores. Fazer a mesma coisa todos os dias em um modo automático, assim tornando-os vazios e sem conteúdo. 
Ela precisava de variedade em sua vida, não se contentava em ser sempre a mesma pessoa, vestir sempre as mesmas roupas, ter sempre o mesmo cabelo.

Seu país certamente já deve ter ilustrado o pesadelo de um alguém que não morasse lá, mas soubesse como era a vida de quem ali vivia. Ela morava, ela sim sabia. E detestava. Queria mudar tudo, revolucionar, entrar para a história. Porém, não tinha renda nem para revolucionar a própria vida, o que dirá a do país inteiro.

O tempo passou, ela conheceu pessoas, misturou lembranças boas em lembranças ruins e vice-versa. Inseriu nomes em sua mente, que entraram sem serem chamados e insistiam em permanecer, tais como visitantes inconvenientes e acomodados. Ela já os tentara expulsar, não adiantava. Queria ficar longe deles, quem sabe assim deixar de ser tola e esquecer não fosse uma tarefa tão difícil, afinal. Já não tinha preferência de onde desejaria morar, e já não sabia se deveria ir. 
E a faculdade? E os primos? E os amigos? Como fica a família, como ficariam seus projetos, suas metas? 

Não sabia para onde queria ir, não sabia se dava continuidade para seus planos em um outro lugar. Só sabia que não aguentava mais ver as mesmas paisagens, as mesmas pessoas e viver a mesma rotina entediante e repetitiva, todos os dias, sem parar para respirar. Para ser quem queria ser, viver como queria viver. Não queria mais lidar com memórias, estava cansada de tentar adivinhar quem era quem. Não importava mais.

Ela não sabia em que lugar exatamente gostaria de viver, se esse lugar era apenas fora da cidade, ou se ficava longe também do estado, do país ou até do continente em que morava. Ela precisava de outro lugar, qualquer lugar que não fosse esse. 
Era apenas isso o que ela sabia.


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