#642Coisas | Invisible

10 junho 2015


295. Um dia em que você ficou invisível
O despertador tocou, oito da manhã. Porém, já estava acordada, sem sono. Como não aguentava mais ficar deitada, levantou.
Olhou no espelho pra ver o estado de seu cabelo, mas não tinha nada lá. Assustada, olhou no espelho do corredor. Nada de novo. 
Como assim? Teria morrido enquanto dormia? Sendo assim, perfeito: era assim mesmo que ela queria morrer, fazendo o que amava. 
Será que sua família sentiria sua falta? Como sua melhor amiga reagiria? E como outras pessoas reagiriam? Como seus colegas de trabalho, por exemplo?
Ela não imaginava um escândalo, digno de aparecer em histórias de jornal, mas sabia o escarcéu que certas pessoas causariam. 
Pensando nisso tudo, olhou para a cama. Seu corpo não estava lá. Então levou a mão ao peito e ouviu seu coração bater. Sim, estava viva. 

Esquecendo-se de pôr o pijama, saiu correndo e foi procurar alguém. Sua mãe e irmã não estavam, e sua avó também não. Restava apenas seu avô.
- Vô, aconteceu uma coisa muito estranha, eu fui olhar no espelho e não tinha reflexo nenhum e... vô? Vô, eu tô falando contigo! Aff, que mania que as pessoas têm de ficar ignorando os outros! Qual o problema de vocês?
Porém, ele não respondeu. Deixou o café coando e foi para a sala, ligar a TV. Ela nunca iria entender por que as pessoas daquela casa não viviam sem televisão.
Mas naquele momento, não pensou nisso. Estaria ela invisível, então? E ninguém podia ouví-la? Nossa... era igual nos filmes, mesmo. Pelo menos uma coisa na vida era parecida com eles. 

Decidiu fazer o teste: foi na parada, cumprimentou os conhecidos, não foi respondida. Bingo. Porém, ela precisava garantir que não ficaria com falta no trabalho: isso significariam 8h a menos de trabalho, e por consequência, cobranças. Além do dinheiro a menos no final do mês, é claro.
Então, bolou um plano: ela pegaria o cartão que estava em sua casa, e bateria-o nas horas certas. Viu um carro estacionado e não conhecia o dono, mas ouviu a conversa dele e ele iria onde ela ia: pegou carona com rapidez, sem ser percebida. Yay! Chegou lá em poucos minutos.
Aproveitou sua invisibilidade para ouvir a conversa dos outros e checar se alguma delas era sobre ela: ela não era insegura nem nada, porém, era muito curiosa. Talvez até demais.

Como ninguém estava vendo, deu uma passadinha no super mercado e comeu. Comeu tudo o que desejava, descobriu novos sabores. Comeu até não aguentar mais. Realizando o sonho de muita gente, ela aproveitou os corredores vazios para fazer o que bem entendia. As câmeras registrariam um momento meio "poltergeist", mas foda-se. Que tipo de idiota acharia que ela estava invisível e resolveu assaltar o mercado? Impossível.
Ela não podia fazer o mesmo na loja de roupas: como iria explicar as roupas novas que ganhou, caso voltasse a ser visível?
De um jeito ou outro, descobriu que não voltaria mais a ser visível.  Não sabia como tinha ficado assim, nem como sairia deste estado, mas tanto faz. Ela não queria sair dessa, por incrível que pareça.
A solução era difícil, mas não havia outra alternativa a não ser escrever uma falsa carta de suicídio. 
Mesmo sem que ninguém pudesse vê-la, não queria que ninguém a conhecesse, então queimou seus diários e levou o atual consigo.
Ela não podia tirar suas roupas de onde estavam pois já era estranho levar o diário, então teve que ir contra seus princípios e ir nas lojas pegar o que precisava. Não queria assustar mais ninguém, então esperou que fechassem. Ela pegou malas, roupas, calçados, pesquisou qual era o próximo voo internacional e partiu. Conseguiu passar despercebida, pois de um jeito estranho, as coisas que ela tocava começaram a ficar invisíveis também.
Ela não tinha mais endereço fixo, podia morar onde quisesse e desprender-se totalmente de seu passado e de seu presente. A rotina nunca a agradou, dias iguais se tornavam cada vez mais vazios.
Pôde fazer o que sempre quis: desaparecer. Só não imaginava que fosse conseguir isso de modo literal.
Com o tempo, estava tão acostumada a mudar de endereço e não ter ninguém, que a falta de rotina caiu na rotina também. O vazio voltou e agora não tinha mais jeito.

Esta história foi inventada não apenas no quesito da invisibilidade, mas também nos sentimentos e desejos do que fazer caso ninguém esteja olhando.
 
Este post faz parte do desafio 642 Coisas sobre as Quais Escrever, quem estiver interessado em participar, basta acessar a página do facebook clicando aqui.



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