#642Coisas | Leve-me daqui

17 junho 2015


163. Abra a sua pasta de música (celular, pc, ipod, etc) e escolha aleatoriamente, anote a primeira frase da canção e use como abertura de seu texto.
17 Anos e fugiu de casa. Estava cansada de viver ali, cansada de todas as mentiras, de todas as traições, de todas as decepções. De todas as brigas e discussões desnecessárias. De todas as vezes em que exageraram um problema idiota, mas ignoraram o que realmente era sério. 
Estava cansada daqueles lugares enjoativamente nostálgicos, cansada de trombar ocasionalmente com pessoas que conviveu no passado. Pacificamente, agressivamente, não importa. Estão no passado, deveriam ficar lá. Quem já foi não precisa voltar, quem já sumiu não deveria aparecer. O desaparecido deveria permanecer desaparecido.

Começara a trabalhar nisso aos 14 anos. Estagiou, guardou dinheiro. Cem reais por mês é o suficiente?
Seu perfeccionismo a ajudou: quis dar o melhor de si. Quis ser a funcionária exemplar, talvez não a melhor da equipe, mas o mais próximo de profissional que ela conseguisse. 
Quis ser uma boa aluna também, sempre.
Foi efetivada aos 16. Agora juntava 300 por mês. Sobrava pouco? Claro né, quem não tem ensino superior não ganha tanto assim. Mas ela não era consumista, comprava apenas o que precisava: remédios, absorventes, xampu, etc. Seus pais não apoiavam seus estudos, se concentrar era sempre uma luta contra o barulho da TV e das discussões idiotas, sempre sobre algo como "quem deixou a tampa da privada aberta? Foi você? Você não presta!". Quem se importa? É só baixar a tampa, porra! 
Eles também não apoiavam seu trabalho. Era muito injusto ela ter o dinheiro dela enquanto seus pais tinham que pagar as contas. "Tanto faz", ela pensava, "Quando tiveram filhos eles sabiam que as contas encareceriam, e se não sabiam, eram burros". Ela até podia dar um pouco de dinheiro, mas eles se viravam bem com o que tinham assim como ela teria de se virar um dia. E ela não se esforçaria pra ajudar quem nunca ficava feliz com a felicidade dela. Ela conhecia aquela frase: "as pessoas querem te ver bem, mas nunca melhor do que elas". Só não se conformava com o fato de que essas pessoas eram seus pais, e não uma coleguinha de escola qualquer. Sinceramente? Ela não ligava se suas coleguinhas gostavam dela ou não, se invejavam ou não. Pensar nisso era perda de tempo.

Aprender a cozinhar? Fácil, sabia fazer qualquer coisa desde antes, bem antes dos 12 anos. Arrumar a casa? Quem reclama disso é fresco e acomodado. Fazer as contas caberem em seu salário? Ia ser cada vez mais simples: fez vários cursos, a maioria fornecida pela sua sorte ao ser uma das sorteadas pra ganhar um desconto. A surpresa foi entrar em um curso de inglês e descobrir que seu inglês já era avançado, graças ao vício que ela tinha em traduzir textos diariamente, ou até sites inteiros. Seu Facebook era todo em inglês, e ler notícias em inglês era um hábito. Ela era curiosa, não ter inglês fluente nunca foi um obstáculo. 
O inglês só não era fluente no papel, porque ela podia muito bem assistir séries e filmes legendados sem prestar atenção na legenda.
Os outros cursos eram focados na área de escritório, sua área dos sonhos. 
Tudo isso a ajudou a conseguir um emprego melhor ao terminar o Ensino Médio, estava de olho nessa vaga desde que começara a estagiar. Ficava em outra cidade, e os cursos nos quais ela fez de tudo para ser aluna nota 10 eram para preencher os requisitos da vaga. O salário era alto, tão alto que ela não se atreveria a contar para qualquer um por aí. Exibida ela certamente não era. 
Era bom o suficiente para alugar um apartamento legal, mas demoraria um mês até os documentos serem enviados para a matriz. Perfeito pra encontrar o imóvel e negociar, e o esforço nem era tanto porque ele ficava em frente ao seu emprego novo. Precisava apenas negociar.
Vendido! Ela tinha agora um emprego novo, apartamento novo e bolsa integral na faculdade de administração. "Clichê", e daí? 
O bom era que seu dinheiro a ajudaria a sobreviver durante o tempo que passaria licenciada ou desempregada, no caso de viagem com a faculdade ou imprevistos indesejados. Seu chefe riu de seu plano. "Quem precisa desse dinheiro guardado quando se tem a sua determinação e sua inteligência?". Garantir nunca era um erro para ela, é necessário estrategiar. É necessário fingir um pouco que não conhece suas  próprias qualidades, confiança é bom. Mas quando é em demasia, prejudica.
É necessário se preparar para o que viesse. Até agora ela apenas corria atrás das coisas, nunca deixou que o acaso tomasse conta de nada. O acaso não era lá muito confiável. 

Mas quem sabe um dia o acaso pudesse fazer um bom trabalho. 

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