A Crônica dos que não Foram

01 outubro 2015


Presos em um quarto escuro, é assim que eles se sentem. Algemados a memórias ruins e arrependimentos de tudo o que fizeram (e também do que não fizeram).
Eles olham fotos de paisagens bonitas e diferentes, então lamentam por não estar lá neste momento.
Não há preferência, não há um lugar ideal, não há um destino definido. Apenas a vontade de ir sendo impedida por um obstáculo qualquer.
Clima ideal? Nada de chuva, por favor. Nada de nublado, nada de frio. A vida já é cinza o suficiente às vezes.

Então eles tentam abrir a porta, veem que está trancada. 
Saem pela janela, que não é tão alta assim. Ela é escura, não ajuda na iluminação. Não ajuda em nada que não seja imaginar como seria estar em um lugar que não fosse ali.
Eles partem, mas não para onde queriam. 
Eles não sabem onde gostariam de estar. Qual cidade, de qual estado, de qual região, de qual país? 
Qualquer lugar que seja longe o suficiente já está bom. 
Porém, qualquer lugar que seja longe o suficiente é caro demais até mesmo à prestação.

Eles caminham na rua, uma estrada que para um desconhecido, parece deserta. Mas que para eles, é lotada até demais.
Encontrar com pessoas antigas é como dar de cara com fantasmas. Fantasmas do passado.
Nada de olá, beijinho no rosto, como vai sua mãe. Ninguém ali tem tolerância para falsidade e cumprimentos vagos. Ou você gosta com sinceridade ou você cai fora.
Eles fitam um ao outro com um olhar fuzilante. Ambos sabem o por quê, mas cada um tem seus motivos e sua própria versão da história.
A empatia morre quando a confiança é assassinada e o apego, enforcado.
O apego morre sempre de um modo lento e doloroso.

A estrada parece não ter fim, mas isso não é preciso quando não se tem um objetivo definido.
Basta dar meia volta e ir para casa, observando o pôr do sol por cima das árvores (quem sabe isso não daria uma boa foto?). 
Então eles chegam. Pra quê chave pra abrir a porta de uma casa que ninguém sequer roubaria?

Enfim, de volta ao quarto escuro. Ficar lá é chato, sair é angustiante.
Inconformação define o dia a dia dos que não foram.


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