Vai ter short na aula, sim!

03 março 2016


E se reclamar, vai ter mini-saia também

Há mais ou menos uma semana, a Globo mostrou em uma reportagem no Jornal do Almoço, um manifesto das estudantes do colégio Anchieta, pedindo a liberação do uso de shorts durante as aulas.
Elas fizeram um abaixo assinado, achando que seria algo mais interno, feito apenas pelos estudantes e olhe lá. Mas o protesto teve uma repercussão bem maior do que o esperado, se tornando notícia de jornal e contando com mais de 15 mil assinaturas.

Claro que sempre tem um (e não apenas um) ignorante para criticar o movimento. 

































Não sei quem fez a postagem (e nem quero saber), mas acredito que antes de argumentar contra qualquer assunto, é necessário pensar e ter ao menos um pouco de coerência no uso de palavras.
Em primeiro lugar, eu vi a reportagem e não vi nenhuma garota usando um short tão curto a ponto de mostrar a bunda, ao contrário, mesmo o mais curto de todos cobria tudo e quase todos tinham uma aparência mais antiguinha, sabe? Sem aqueles efeitos rasgados, com tachinhas, com rendinhas, que aliás, eu amo e já me arrependi de comprar sem provar (sou preguiçosa e apressada demais pra isso), porque depois eu vi que ele mostrava a bunda e como eu joguei fora a notinha, acabei deixando de usar e dando pra minha irmã.


Em segundo lugar, a roupa que uma pessoa usa não define o que ela faz ou deixa de fazer pra ajudar em casa. Não sei se quem fez essa postagem tem algum poder sobrenatural, a ponto de conseguir ler a mente das pessoas só de olhar o tamanho do short, mas se tem, vou lá pedir pra ela prever meu futuro também, quem sabe não dá uma olhada no tarô, me ajuda a conversar com gente que já partiu... porque só assim mesmo pra ela conseguir adivinhar isso, de resto, tamanho de roupa não define caráter. Claro que as intenções variam, mas às vezes a gente só não quer passar calor mesmo, caso não saibam, vivemos em um país tropical onde faz um calor dos infernos, e andar de calça comprida em uma temperatura de 40° é pedir pra aguentar pressão baixa (quem tem, sabe como é, haja ventilação pra fazer passar o desconforto).

Em terceiro lugar, acho que já chega de usar a frase "mulher tem que se dar o respeito". 
Em uma escola onde eu estudei, ouvi dizer que short e saia curtos eram proibidos porque os garotos são muito assanhados. Porque teve um caso de um garoto que levantou a saia de uma menina. E POR QUE NÃO REPREENDEM O GAROTO????
Ele vai lá, levanta a saia da guria, humilha ela em público, faz ela passar um puto de um constrangimento, e as pessoas ainda têm coragem de passar a mão na cabeça dele? De botar a culpa na garota, dizer que a saia dela atiçou o garoto?
Saias e shorts não falam. Eles não vão cochichar no ouvidinho de merda dele e dizer "ei... me levante. Toque na bunda dela, Vai lá... só um toquezinho de leve, quem sabe uma palmadinha...".
Nós estamos no século XXI, e o feminismo existe desde os anos 30, mas mesmo assim as pessoas insistem em rebater contra ele, fazendo uso de comentários sem um pingo de lógica e coerência.
Mães, por favor, ensinem seus filhos a respeitar as garotas do mesmo modo que você gostaria de ser respeitada todo dia, quando sai na rua e é obrigada a ouvir cantadas de baixo calão, mesmo quando está de calça comprida e t-shirt surrada.
Ensine seu filho que o tamanho da roupa de uma garota não é um convite para absolutamente nada. Ensine seu filho que a roupa que uma pessoa usa não é um reflexo da índole da mesma.
Ensine ele a pensar antes de agir, que quando uma garota diz não, é não. Que quando ela diz pare, é pare. E que certas coisas só podem ser feitas se houver o consentimento dela. Que uma garota de short curto não está usando essa roupa pra chamar a atenção de ninguém, e sim, porque está com calor ou simplesmente gostou do modelo, comprou e usou. 

Não, a mulher não é obrigada a suar pelas cochas por medo de ser assediada. Os homens é que são obrigados a respeitá-las, independente da roupa que estiverem usando. A gente também admira beleza, a gente também repara em peitos sarados do sexo oposto e em braços fortes, mas a diferença é que a gente guarda esse pensamento pra nós mesmas, ou no máximo, pra melhor amiga que tá ali do lado, pronta pra ouvir nosso cochicho. E o cara não faz nem ideia do que gente está falando...
É assim que tem que ser. 

"Ah, mas elas vivem pedindo respeito mas não respeitam os pais, xingam a vó". Como você pode saber? Você já foi na casa de cada uma delas pra ver as briguinhas de família? O fato de ela ser feminista não interfere no modo como ela trata os familiares, isso tem muito mais a ver com o caráter dela do que com os movimentos dos quais ela faz parte.
Claro que algumas podem muito bem ser do tipo que vivem mandando o pai tomar no cu, mas não são todas. E tem muita garota por aí que não se diz feminista mas desrespeita pai, mãe, professor, guarda de trânsito, operadora de caixa de supermercado... isso varia de pessoa para pessoa, independente da sua posição política ou sociológica.
É até engraçado (pra não dizer revoltante e desanimador), ver uma pessoa que se acha inteligente usando uma frase dessas para argumentar contra qualquer assunto.

Inventar defeitos/erros que você não sabe se existem não é argumento muito menos desculpa para culpar as vítimas de assédio no Brasil e no mundo. 
Usar uma roupa mais curta ou mais apertada porque você gostou do modelo, da estampa ou porque estava com calor não é errado. Chamar uma pessoa de vadia usando a roupa dela como justificativa, sim. Controlar o vestuário de uma pessoa como se você estivesse em um quartel, sim (e você não é o comandante). Assediar uma pessoa, encostar nas partes íntimas, passar cantada, sim, sim e sim. 

Pense mais antes de falar sobre essas coisas, porque um dia, a assediada pode ser você. A vadia pode ser você. A culpada por ter sido estuprada talvez, pode ser você.
E o homem? Vai estar lá, feliz da vida, assistindo a Sessão da Tarde com a família, graças ao seu argumento "genial" de que o certo seria usar roupas mais compridas para se proteger.





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