E a violência persiste

26 maio 2016



Não bastava a notícia de que a Ana Hickmann quase foi assassinada por "amor". Em poucos dias, lá vem outra notícia ainda pior, tão horrível que quase apaga a outra.
30 homens contra uma garota. E o motivo: vingança de ex. 29 amigos que agiram sem pensar 2x. 29 amigos que não recuaram, não pararam os outros, não saíram, não chamaram a polícia, não ficaram nem um pouco horrorizados com o que foram chamados para fazer.
30 homens, uma câmera e uma garota sendo estuprada até quase morrer. 
Não bastasse isso, os homens, orgulhosos, postam o vídeo na internet zombando do que fizeram, achando graça. Bem feito pra ela, né?

Nem sabemos como foi o relacionamento. Nem sabemos como ele terminou. Mas sabemos que nenhum término justifica esse tipo de crime. Nada justifica crime algum.

Pra quem está por fora de ambas as notícias, há alguns dias atrás a Ana Hickmann teve seu quarto de hotel invadido por um fã que se dizia apaixonado por ela, e de coração partido. Ele escreveu até mesmo uma carta (ou seria um livro?) pra ela, falando sobre o quão profundamente ela o havia magoado. Em vingança, ele descobriu em que hotel ela estava, levou uma arma, e tentou matá-la.
A mãe dele tinha problemas no coração. Eu pensei "A mãe dele está cheia de problemas, e ele ainda faz isso? Coitada da mulher, imagina que horrível deve ser ver um filho virar notícia por ser um crimonoso". Porém, ela disse que ele não iria machucar a apresentadora.
Talvez seja apenas dificuldade para assumir que o filho foi capaz de uma barbárie dessas. Mas não deixa de ser errado. Abra seus olhos, seu filho cometeu um crime. É óbvio que é difícil saber algo assim, mas não dá pra passar a mão na cabeça dele agora.



A segunda notícia já estava meio óbvia pelo texto, mas vou repetir: no Rio de Janeiro, uma garota chamada Bia "teve o que mereceu". Seu ex chamou 29 amigos para estuprá-la, filmar, colocar na internet e dar risada do ocorrido.
Felizmente, sororidade existe. As feministas viram o twitter antes dos portais de notícias. Denunciaram, mostraram apoio, fizeram de tudo para abrir os olhos da população. 
Por enquanto, ainda não vi nenhum homem falando algum absurdo sobre a notícia. 
Ainda.

O que mais me assusta nesses acontecimentos não são os acontecimentos em si, mas o modo como eles são tratados pelos homens. A negligência, a ignorância, a tentativa de justificar, as piadas. O ódio, a misoginia, o machismo. 
O que mais me assusta é que em um mundo onde uma mulher é quase assassinada por um "fã", e uma garota é estuprada por trinta homens, as feministas é que são chamadas de nazistas. Elas é que são as loucas. 

Nós lutamos todos os dias para que esse tipo de coisa pare de acontecer. Nossa luta não é contra os homens, é contra o machismo. Quantas vezes precisaremos repetir isso? Quantas vezes uma mulher precisará ser assassinada para que a sociedade perceba a importância do feminismo? 



Ano passado, o tema da redação do Enem foi "A Persistência da Violência Contra a Mulher na Sociedade Brasileira". Os homens surtaram. É um absurdo, não? Com tanta coisa acontecendo no país, eles querem falar sobre mulheres sendo assediadas, violentadas, estupradas e assassinadas? Que importância isso tem? 
Mas nem todo homem é assim, então pra quê falar isso? Pra quê generalizar?
Note que, em nenhum momento alguém disse que todos os homens fazem isso. Apenas é dito que há uma persistência por parte da grande maioria, para que esses casos ainda existam.
E os que não matam nem agridem, menosprezam o ocorrido.
Até mesmo um de meus ex colegas de trabalho (que trabalhava lá na época), disse "se a mulher apanhou, é porque alguma coisa fez". É horrível saber que em pleno século 21, tem gente que pensa assim.

Parece que, quanto mais tenta-se abrir os olhos deles para o que está acontecendo, mais eles fecham. Eles colocam as mãos nos ouvidos e dizem: "lálálálálálá eu não estou te ouvindo...".
Porque é assim que funciona: eles não irão se importar com nada disso, até que ocorra com a mãe deles, a irmã deles, a esposa deles. Eles não ligam, porque não acontece com eles. Ao andar em uma rua escura, deserta e se deparar com o sexo oposto, eles não ficam com medo de estarem sendo perseguidos, eles não ficam com medo de assalto, sequestro, estupro. Eles não correm esse risco.
Pimenta nos olhos dos outros, é refresco. É muito mais fácil passar a vida olhando pro próprio umbigo sujo, do que se colocar no lugar de quem está sofrendo algo que nunca acontecerá com você. 

Mas a facilidade não salva a vida de ninguém.

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