Precisamos falar sobre Culpabilização da Vítima

31 maio 2016


O caso da garota que foi estuprada por mais de trinta homens não para de ser comentado, e os comentários me deixam cada vez mais revoltada com o quanto o ser humano pode ser boçal.
"Ah, mas ela não é tão santa assim, tinha foto dela segurando uma pistola"
"Ela não é tão inocente, tava acostumada a transar com mais de 20"
"A história não é bem assim, soube que ela engravidou aos treze anos".
Quando é que o ser humano vai entender que quando se trata de um crime, não tem mas???
Você acha que a possibilidade de ela ser uma vadia diminui a gravidade do caso? Então meus parabéns: você é tão monstruoso como os mais de 30 que estupraram ela. 
Você acha que a dor foi menor porque supostamente ela tinha o hábito de transar com mais de vinte? Vamos imaginar que você tem namorado: você pode não transar com mais de 20, mas definitivamente você transa com frequência. Provavelmente mais de duas vezes por semana.
Sua vagina não é fechada, então experimente ser dopada, e acordar com a sua perereca sangrando, ardendo, com mais de 30 homens ao seu redor, apontando armas e fuzis pra você. "Ah, mas é diferente". Não, não é. Você transa com frequência, então não vai doer tanto.
Foda-se, aguenta.

"Ah, mas não foram eles que engravidaram aos treze" ELES NÃO TÊM ÚTERO, CARALHO, COMO QUE ELES VÃO PORTAR UM BARRIGÃO, Ô GÊNIO DA BIOLOGIA?????

Pior do que ver homem falando isso, é ver mulher falando isso.
Querida, um dia pode ser você. E você pode ser uma santa padroeira, pode ter certeza que eles vão arrumar uma desculpa pra colocar a culpa em ti, fazer com que você pareça ter merecido. Santa padroeira seria tipo uma freira, não? "Ah, freiras devem ser virgens, mas espera: e aqueles escândalos na Igreja Católica? Pra onde foi meu dízimo? Como que meus 10 centavos tão fazendo falta, se aquela capela mais parece um palácio? Essa puta merecia ser estuprada, quem sabe assim aprende a não tirar proveito da fé alheia!". 
Tá vendo? É assim que funciona.

"Ah, mas comigo não vai acontecer, eu mal consigo namorar de tanto que trabalho, acordo cedo pra estudar, depois vou trabalhar e chego em casa depois das onze". Filha, deixa de ser ingênua, acha que eles não vão arrumar um jeito de dizer que tu chega tarde porque vai em balada?
Acha que eles não vão arrumar um jeito de fazer montagem sua como fizeram com a Bia?
Eu poderia continuar mostrando situações, mas seria conteúdo para um livro e o post precisa ter um fim (e eu já não costumo resumir muito, rsrsrs).


Ano passado, em 2015, o tema da redação do Enem foi "A Persistência na Violência contra a Mulher na Sociedade Brasileira". As feministas comemoraram, mas a reclamação também foi enorme. E vinda de quem? De homens, em sua maioria.
Por que será?
Deve ser porque a persistência é deles, e esse caso é só mais um exemplo.
As feministas passam uma grande parte do seu tempo livre (não vou dizer que é todo o tempo porque a gente tem emprego também, prazer, operadora de super mercado, beijo mãe), debatendo e argumentando sobre várias coisas, inclusive essas barbáries. A gente sempre bate na mesma tecla de que a culpa NUNCA é da vítima, estupro NÃO se justifica, CRIMES NÃO SE JUSTIFICAM. 
Mas as pessoas se recusam a escutar. 
A cada 11 minutos, uma mulher é estuprada no Brasil.  A cada 11 minutos uma família se desespera. A cada 11 minutos, a vida de uma garota é testada na base da sorte, pra ver se aguenta ou não uma situação dessas.
Eu acho inadmissível um homem ter que ver um membro da família, uma namorada, ou uma amiga passando por isso para abrir os olhos e entender que não se justifica um crime.
É inadmissível ter que falar com ele sobre assalto, e perguntar se ele gostaria que culpassem ele por ter sido assaltado (coisa que não chega nem aos pés de sofrer um estupro coletivo, como o que a menina passou).
O pior é que às vezes nem assim adianta.
Eles não querem ouvir, dificilmente vai acontecer com eles, portanto eles nem ligam.

Eu até diria que o tema do enem veio no tempo errado, mas eu estaria errada. 
Ninguém deveria se inscrever para discutir uma coisa que deveria ser ensinada aos moleques desde cedo, não apenas no quesito de respeitar as mulheres, mas é aquele velho ditado: "trate os outros como gostaria de ser tratado", "não faça com os outros o que não quer que façam a você".
Hoje em dia, as coisas estão tão difíceis de serem explicadas e ouvidas, que se eu disser um ditado desses, vão querer me processar por ameaça.
"Então porque você está errada em dizer que o tema do enem veio no tempo errado?"
Porque apesar de essas coisas deverem ser ensinadas desde cedo, também tem um ditado chamado "antes tarde do que nunca". E esse ditado não fala de procrastinação, não é algo que a gente deva citar como justificativa para adiar coisas importantes.
Serve para dizer que, o fato de ser tarde, de ter demorado, não justifica a desistência. Não justifica a gente se acomodar e deixar como tá porque "não tem mais o que fazer".
Tem sim, gente. Tem muito o que fazer.
O que eles não aprenderam na infância, eles vão ter que aprender agora. 
Vai ter debate, sim, vai ter briga, vai ter treta, vai ter confusão, vai ter polêmica, até a ignorância de certas pessoas diminuir e elas entenderem que não se justifica crime nenhum.

Várias mudanças foram conquistadas, não só para as mulheres, mas para o mundo.
Sem o debate, sem a discussão, ainda estaríamos presos na Idade Média (ou muito antes disso).
É preciso continuar falando sobre a Culpabilização da Vítima, sim. E sobre muitos outros temas.

2 comentários:

  1. Esse assunto deu muito o que falar esses dias mesmo.
    Apoio o seu texto!
    Seguindo por aqui.

    Abraços!
    Mi
    http://meulivrodocelivro.blogspot.com.br/

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    Respostas
    1. Que bom que gostou, é bem importante falar sobre esses assuntos.

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E então, o que achou do post? Gostou? Odiou? Achou uma bosta e tá a fim de me mandar pra puta que pariu, e dizer que eu sou uma escrota? Fala aí!